domingo, 25 de dezembro de 2016

É preciso força de vontade para nos livrarmos de um vício e eu não a tenho.


O Flaubert aconselhava a ter cuidado com a tristeza. Cuidado com a tristeza, dizia ele, pode tornar-se um vício. Eu percebo bem o que ele queria dizer. Sou depressiva há muitos anos e não sei como me livrar da tristeza que toma conta de mim. Já tentei psicoterapeutas e psiquiatras. Já tentei o suicídio. Já tive filhos para que a responsabilidade da maternidade soterrasse a tristeza. Já tentei preencher o tempo com merdas e merdinhas para experimentar a felicidade dos gestos rotineiros. Até já tentei tomar decisões ridiculamente fracturantes que espantassem dos meus dias a solidão que neles se instalou. Nada resulta. É preciso força de vontade para nos livrarmos de um vício e eu não a tenho. A tristeza serve para desculpar a inércia e, sobretudo, a mediocridade.

Outubro/2008
(livrei-me do vício, mas ainda estranho.)

Não me peça Razoabilidade

 Se alguma vez me fiz razo (razoável), foi para não te afogar em minha profundidade....

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Paixão Platônica


O que Edith Piaf e Roberto Freire tinham em comum?
Os dois viveram o amor e a arte intensamente, alguns "encontros" em Paris e São Paulo e a paixão platônica de Roberto por Edith...
Abaixo um breve resumo dessa historia contado pelo escritor em seu livro Ame e dê Vexame






Roberto Freire in; Ame e dê Vexame (Editora Guanabara 3° Edição)

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor

Quanto a mim o amor passou
Eu só lhe peço que não faça como gente vulgar
E não me volte a cara quando passa por si
Nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor
Fiquemos um perante o outro
Como dois conhecidos desde a infância
Que se amaram um pouco quando meninos
Embora na vida adulta sigam outras afeições
Conserva-nos, escaninho da alma, a memória de seu amor antigo e inútil.
Fernando Pessoa


Sobre Felicidade

       E se o dinheiro não trouxer a felicidade, menina má?
      Felicidade, eu não sei e não me interessa saber o que é Ricardito. Mas tenho certeza que não é essa coisa romântica e brega que você imagina. O dinheiro dá segurança, proteção, permite aproveitar a vida sem se preocupar com o amanhã. É a unica felicidade que se pode apalpar. 
Ficou me olhando com uma expressão fria que às vezes se tornava estranhamente aguda e parecia congelar a vida ao seu redor.


 Mario Vargas Llosa in: Travessuras da menina má

Ninguém vendo-a assim, imaginaria a vida difícil que deve ter levado desde que nasceu


Ninguém vendo-a assim, imaginaria a vida difícil que deve ter levado desde que nasceu. Tentei imaginar sua infância pobre no inferno que é o Peru para os pobres, e sua adolescência, talvez ainda pior, as mil indignidades, entregas, sacrifícios, concessões que deve ter feito, no Peru, em Cuba, para ir em frente e chegar onde havia chegado. E como se tornará dura e fria por ter de se defender com unhas e dentes contra a desgraça, todas as camas que deve ter conhecido para não ser esmagada nesse campo de batalha que suas experiencias a convenceram que é a vida [...]

Mario Vargas Llosa in: Travessuras da menina má

Faz anos que não planejo nada....



Mas não foi isso que aconteceu, porque na vida raramente as coisas acontecem como planejamos.

Mario Vargas Llosa in: Travessuras da menina má

terça-feira, 24 de março de 2015

Hazel Rowley

Autora do livro Sartre e Beauvoir
A história de uma vida em comum




Por que a senhora decidiu contar a história de Sartre e Beauvoir e focá-la no relacionamento do casal? 
Estudei francês no Sul da Austrália no final dos anos 1960 e início dos anos 1970. Era o momento em que o movimento feminista estava no auge. Eu havia lido as memórias de Simone de Beauvoir e algumas de suas entrevistas, e fiquei muito inspirada. Ela parecia uma mulher realmente independente, e eu também queria viver daquela maneira. Eu gostava da idéia da relação livre, intelectualmente estimulante e mutuamente encorajadora que ela mantinha com Jean-Paul Sartre. Admirava o interesse deles pelas pessoas e pelo mundo, sua capacidade para trabalhar bastante, seu papel como intelectuais públicos e seu engajamento político. Tempos depois, já na meia idade, quis de repente examinar de novo aquela relação, e com mais objetividade. Era uma relação realmente admirável ou não? Beauvoir havia idealizado e representado em suas memórias? Eu queria conversar com os amantes e amigos do casal, para ver o que eles teriam a dizer.

Eles foram o casal mais famoso do Século 20? 
Acho que sim. Eles ficaram famosos depois da Segunda Guerra Mundial, em outubro de 1945. Todos, no mundo inteiro, falavam dessa nova loucura, o “existencialismo” (mesmo que raramente entendessem o que isso significava). Sartre ficou famoso, e por algum tempo Beauvoir tornou-se famosa por causa dele. Mas depois ela adquiriu fama por seus próprios méritos, com a publicação do seu livro O Segundo Sexo, em 1949. Eles eram figuras muito controvertidas, de esquerda, e com sua literatura desafiaram as convenções sociais. Por isso muitos os odiavam. O Segundo Sexo foi considerado por muitos um livro chocante, o que levou Beauvoir a receber muitas cartas de ódio. Ela e Sartre se manifestaram contra a Guerra da Argélia (e contra o colonialismo em geral). Na França, durante os anos 1950 e início dos anos 1960, eles foram amplamente desprezados por essa posição.

Como ocorreu o seu encontro com Simone de Beauvoir? Como se sentiu ao estar diante da mulher que a inspirou? 
Muito intimidada! Ela falava com muita rapidez — todos dizem isso a seu respeito —, e estávamos conversando em francês. Mas para mim foi também um momento muito importante. Naquela época, ela estava com 68 anos, e eu a achei ainda muito bonita. Naquele dia, ela não estava usando um turbante. Os cabelos estavam presos, o que dava a ela um visual melhor. E ela estava usando calça, enquanto que toda a vida havia usado vestidos, até aquele momento. Minhas perguntas foram respondidas automaticamente, e percebi que havia certas coisas sobre as quais ela não queria falar. Por exemplo, quando perguntei se ela e Sartre tinham alguma vez sentido ciúmes um do outro, ela respondeu: “Não, nunca!” Não acreditei totalmente nela, nem naquela ocasião (quando escrevi meu livro, anos depois, aquilo pareceu uma bobagem. Beauvoir algumas vezes sentia muito ciúme das outras namoradas de Sartre).

Não parece contraditório que Beauvoir, que lutou por sua independência e tentou construir uma relação de igualdade com Sartre, fosse tão dependente dele? 
Não estou bem certa se ela era tão dependente dele. Sob alguns aspectos, acredito que ele precisou mais dela do que ela dele. Ele precisava dela como uma âncora, para lhe dar estabilidade. Algumas vezes Sartre esteve à beira da loucura. Nos anos 1950, ele estava muito deprimido, principalmente por causa da política. Ele bebia muito e tomava fartas doses de anfetaminas. Acabou se tornando completamente dependente de drogas. Acho que ele precisava de Beauvoir, que era uma espécie de figura materna, uma mulher que o conhecia muito bem e podia perdoá-lo infinitamente. Em termos de sua literatura, era maravilhoso que pudessem discutir suas idéias entre si. E que editassem o trabalho um do outro.

Relações abertas não eram incomuns. O que fez com que a de Sartre e Beauvoir fosse tão diferente e famosa? 
É verdade, relações abertas não eram particularmente incomuns naquele tempo. Muitos amigos do casal levavam o mesmo tipo de vida. Hoje é algo incomum. O mundo se tornou mais conservador, em parte por causa da Aids. Porém, a maioria das pessoas que vivem relacionamentos abertos não conta tudo um para o outro, e com detalhes em technicolor! Mas Sartre e Beauvoir contavam tudo um para o outro. Isso lhes dava um sentimento de cumplicidade. Para escritores, isso era maravilhoso. Era quase como se cada um deles vivesse duas vidas. O que os tornou também famosos foram as memórias de Beauvoir. Ela despertou ainda mais o interesse sobre a vida dos dois escrevendo memórias sem fim sobre a vida do casal.

Qual é o principal legado de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir para os casais atuais? 
Acho que eles eram um modelo de generosidade. Um nunca impedia o outro. Eles se encorajavam no verdadeiro sentido da palavra: dando coragem e liberdade um ao outro. E, como sabemos, não é fácil amar uma outra pessoa com a liberdade deles. Simone de Beauvoir trabalhou com afinco para controlar seu ciúme. Isso era algo admirável. Eles acreditavam que o ciúme é uma emoção natural, mas isso não quer dizer que o ciúme seja bom para uma relação. Como existencialistas, eles acreditavam que temos força de vontade para lutar contra certas emoções ou tendências negativas. As pessoas dizem: “Sou preguiçoso por natureza ”. Como existencialistas, Sartre e Beauvoir diriam: “ Ser preguiçoso é uma escolha sua!”.

Certa vez Beauvoir comentou que Sartre adorava as mulheres complicadas, e acabava levando-as à loucura. Beauvoir tinha razão? 
Beauvoir e Sylvie Le Bon [filha adotiva de Simone] estavam brincando com Sartre quando disseram isso. É verdade que Sartre gostava de mulheres jovens, vulneráveis e neuróticas. Acredito que ele sofria do complexo de salvador. Ele se imaginava no comando de um grande cavalo branco, um cavaleiro numa armadura brilhante salvando pequenas mulheres indefesas. Esta fantasia o fazia se sentir poderoso, necessário. Mas no fundo disso tudo havia a insegurança de Sartre. Ele se sentia tão feio que sequer gostava de abordar as pessoas na rua para lhes pedir informações. Ele não queria impor seu corpo às pessoas. Suas namoradas eram com freqüência bem loucas. Elas já seriam loucas de início ou ele as tornava assim? Eis uma boa pergunta. Acho que ele gostava de fazer com que mulheres jovens ficassem dependentes dele, e a dependência não é boa para ninguém. Ele também gostava de provocar ciúmes em suas amantes.
Acho que é neste ponto que Simone de Beauvoir é tão admirável. Em suas memórias ela escreveu que, por algum tempo, ela também se tornou dependente. Ela escreve com grande inteligência sobre a “mulher apaixonada” cuja vida gira em torno do seu homem. Mas, depois de alguns anos nessa condição, Beauvoir tomou as rédeas da situação. A longo prazo, ela não permitiu que Sartre a enfraquecesse. Ela preparou as coisas de modo que Sartre a tornasse forte. Muito habilidoso da parte dela, acho.


Agora sabemos que Beauvoir mantinha relações com mulheres, as quais ela sempre negou. Não é uma postura surpreendente, dadas suas idéias filosóficas? 
É verdade, e eu não sei porque ela negou seus relacionamentos com mulheres. Isso é um pouco decepcionante. Acho que, em parte, porque ela via a si mesma fundamentalmente como heterossexual, e era assim que também se viam as mulheres com quem ela teve relações. Próximo do fim de sua vida, Beauvoir disse que gostaria de ter sido mais honesta sobre sua sexualidade, mas não poderia porque outras pessoas estavam envolvidas, e ela não se sentia livre para contar tudo. Tinha que ser discreta.

A senhora teve acesso a cartas inéditas que lhe forneceram muito material para o seu livro. Muitas, porém, ainda não estão disponíveis. A senhora já imaginou que tipo de Sartre poderia estar oculto nessas cartas? É possível mudar o ponto de vista sobre ele com a leitura desse material inacessível? 
Examinei cartas de Sartre para quase todas as suas namoradas, e tenho certeza de que não restou nenhum Sartre oculto para ser descoberto. Vi centenas e centenas de cartas não publicadas, e acredito que agora conheço bastante bem o íntimo de Sartre.

Imagine que Beauvoir e Sartre ainda estivessem vivos. Como eles enfrentariam alguns desafios atuais como o terrorismo, a Aids ou mesmo a revolução da vida virtual? 
Boa pergunta. Também me pergunto sobre essas coisas. Eles nunca usaram nem máquinas de escrever, imagine computadores! Sempre escreveram tudo à mão, e a vantagem é que podiam escrever em qualquer lugar : sob uma árvore, num café barulhento, qualquer lugar. Eles escreveram muitas cartas. Será que teriam freqüentado cibercafés em suas férias? Imagino que sim. Mas eles também apreciavam a sensualidade das canetas, da tinta, do papel. Cibercafés não são lugares sensuais. Isso teria sido uma perda para eles. Sobre a Aids: eles usariam preservativos. Uma amiga minha negra sul-africana, de 30 anos de idade, leu meu livro e ficou enormemente chocada com a vida sexual deles. Ela me disse: “Fico me perguntando se eles usavam preservativos!” A resposta é não, não usavam. Sobre o terrorismo: havia bastante terrorismo durante a Guerra da Argélia. Sartre não gostava do terrorismo, mas afirmava que entendia porque pessoas que têm uma causa justa, e não têm grandes exércitos ou equipamento militar, têm que recorrer a esta estratégia contra pessoas que têm essas coisas e que estão colonizando-as ou atacando-as injustamente.

Não parece incrível que eles fossem tão vulneráveis em suas relações, apesar da força de suas idéias filosóficas? 
Sim. Tanto Beauvoir quanto Sartre eram estranhamente inseguros à maneira deles. Beauvoir muitas vezes afirmou que achava difícil combinar amor com independência. Estar apaixonada a tornava vulnerável, dependente do outro, atemorizada pela perda do amor daquela pessoa. Tanto ela quanto Sartre se sentiam agradecidos às pessoas que os amavam.

A senhora estudou o existencialismo durante muito tempo. Como o livro a ajudou a compreendê-lo mais? Qual foi a importância de tê-lo escrito? 
Escrevi minha tese de doutorado sobre o existencialismo e Simone de Beauvoir nos anos 1970. De fato, sou interessada por esse assunto há muito tempo. É muito bom ter retornado a um tema que foi uma paixão anos atrás. Senti-me como se estivesse voltando para casa. Jamais gostei tanto de ter escrito um livro. Mesmo estando perfeitamente consciente de suas falhas, eu ainda admiro Sartre e Beauvoir. Ainda consigo aprender com eles. Simone de Beauvoir, em particular, me faz querer viver com mais coragem, engajamento e paixão. Ela me faz querer ler mais livros, viajar pelo mundo, me apaixonar de novo, assumir posições políticas mais firmes, escrever mais, trabalhar mais, atuar com mais intensidade e olhar com mais carinho para a beleza do mundo natural. Ela amava a natureza, era uma mulher muito sensível.

A senhora esteve recentemente no Brasil para pesquisar sobre Cristina Tavares, a amante brasileira de Sartre. O que descobriu sobre ela? 
Eles não foram amantes. Cristina nunca dormiu com Sartre. Ele a cortejou vigorosamente. Tenho certeza que ele teria gostado de dormir com ela. Mas ela tinha 25 anos, era uma boa moça católica. Ele tinha 55 anos, e estava longe de ser bonito. Ela admirava Sartre e Beauvoir, não há dúvidas quanto a isso. Logo depois que deixou o Brasil, Sartre escreveu uma carta de onze páginas para ela, com uma longa lista de livros para ser lidos, a maioria sobre política. Cristina os encontrou de novo, diversas vezes, em Portugal e na França, permanecendo em contato com eles. Acho que Sartre podia perceber que ela era uma jovem especial, mesmo com apenas 25 anos. E ela provou ser muito especial, tornou-se uma importante congressista, uma pioneira da questão feminina no Brasil. Ela nunca se casou, era muito independente, atlética, tinha muitos amigos, e era fortemente engajada na política progressista brasileira. Tragicamente, morreu de câncer com apenas 50 anos.

Sartre costumava terminar um relacionamento quando deixava de amar suas namoradas, embora continuasse ajudando-as financeiramente durante muito tempo. Esse comportamento não era uma espécie de machismo? 
Sim, acho que Sartre estava cheio de machismo. Mas, por mais estranho que pareça, não com Simone de Beauvoir! Eis mais uma razão porque sua relação é única e tão interessante.

Se a senhora tivesse que escolher um livro de Simone de Beauvoir, qual seria? Por quê? 
Prefiro as memórias, mas, como são quatro volumes, não posso escolhê-las, mesmo achando o segundo volume especialmente interessante. Imagino que escolheria seu livro mais curto, Uma Morte Muito Suave, no qual ela fala da morte da sua mãe. O livro mostra a suavidade e sensibilidade de Beauvoir, algo que ela geralmente escondia.

A dualidade “amores contingentes” e “amores necessários”, idealizada por Sartre, explica a relação dele com Beauvoir e deles com os outros? 
Não, não explica. Às vezes fico pensando que essa foi a forma que ele “vendeu” seu estilo de vida a Beauvoir, para torná-lo mais saboroso. Outras mulheres eram necessárias para Sartre, mas, conforme se revelou com o tempo, ninguém durou tanto ou foi tão íntimo quanto a relação de cinqüenta anos de Sartre com Beauvoir. E ninguém mais foi um par intelectual para eles, da forma que um foi para o outro.

Sartre trouxe glamour para a filosofia, conduzindo-a a um nível importante no século 20. A filosofia ainda é necessária nos dias de hoje? 
Muito menos. Naquele tempo, os melhores e mais inteligentes alunos da França estudavam filosofia. Nos dias atuais a filosofia não tem o mesmo status. Naquela época, os filósofos acreditavam sinceramente que podiam mudar o mundo. Não acredito que os intelectuais tenham mais essa ilusão. Sartre tornou a filosofia “sexy” porque o existencialismo não era uma filosofia de torre de marfim. Era uma filosofia para ser aplicada à vida diária, uma filosofia que falava de liberdade, escolhas e auto-ilusão. Na época, era uma filosofia muito estimulante para as pessoas. São coisas ainda muito interessantes para nos fazer pensar.

Sartre viveu muitas vidas, e se tornou mais engajado nos problemas do seu tempo à medida que envelhecia. Ele apoiou o movimento da independência da Argélia, e rompeu com o Partido Comunista Francês depois de 1956, quando a União Soviética invadiu a Hungria. Ele e Beauvoir se sentiram muito isolados naquela época, mas permaneceram lutando. Intelectuais como Sartre não são mais possíveis hoje? 
O mundo hoje está numa desordem desastrosa, e mais do que nunca precisamos de intelectuais públicos corajosos.

Sartre viveu seus últimos dias dependendo das pessoas, aparentemente dominado pelas idéias do então jovem intelectual Benny Lévy. E de acordo com Beauvoir, em suas memórias, ela se sentiu enganada por Sartre. Eles fracassaram? 
Sartre estava dependente no final de sua vida porque estava cego. De 1973 até sua morte, em 1980, ele não podia ver. Isso significava que não podia ler, nem escrever. Ele precisava de pessoas que lessem para ele, e esse foi amplamente o trabalho de Benny Lévy. Eles tiveram longas conversas, que foram gravadas e publicadas por Lévy. Beauvoir sentiu que Lévy se aproveitou de um homem frágil e cego, e publicou idéias que não eram as de Sartre. Não sei se ela se sentiu enganada por Sartre, porém muito magoada com a hostilidade de Benny Lévy com ela. E com a hostilidade da jovem Arlette Elkaïm, que Sartre tinha adotado legalmente. Receio que o final do livro seja um pouco triste. Muitas pessoas me dizem que choraram quando leram sobre o funeral de Sartre. Beauvoir estava tão devastada, tão perdida, tão frágil. Eu mesma chorei, admito.

Entrevista da escritora pelo jornalista Paulo Lima

Já havia postado essa entrevista ha 4 anos atras, quando falei mais desse casal que me fascina, abaixo o link:

http://algoquedeveteracontecido.blogspot.com.br/2011/04/jean-paul-sartre-e-simone-de-beauvoir.html

Pedras no caminho? Guardo todas, um dia, vou construir um castelo..!!



Nemo Nox

ou 

Fernando Pessoa

Seja de quem for é uma bela frase.

Como leitora voraz de Fernando Pessoa, tenho grande desconfiança dessa frase ser dele, não faz nem um pouco seu estilo literário...

Hoje antes de postar qualquer frase ou texto aqui na Casa, procuro me certificar de várias formas a verdadeira autoria. 

Já cometi uma injustiça com o poeta Edson Marques, atribuindo a Clarice Lispector uma frase sua:
 (http://algoquedeveteracontecido.blogspot.com.br/2012/03/salvacao-e-pelo-risco.html)...
 Aprendi com o erro...

De uns tempos pra cá, a maioria das frases aqui colocadas tiro direto dos livros que leio para diminuir os risco dessas injustiças e erros literários.

Dai a Cesar o que é de Cesar....

Quem é Nemo Nox?
http://www.nemonox.com/main-br.html

Uma pagina interessante sobre o assunto:
https://pt-br.facebook.com/AfinalQuemEOAutor

quarta-feira, 18 de março de 2015

E falando em emoção


Olha ela aí linda, amo essa interpretação. 
Já senti essa "música" na pele...

...e falando em Elis, em águas e esperança.....



As águas de março fechando o verão, são mais que nunca esperança de vida em nossos corações e nosso planeta. 
Mas a esperança do mês de março não veio só de suas águas , não é só esperança de vida mas esperança de mudanças e renovação para o nosso pais. 


terça-feira, 10 de março de 2015

A cultura e a casca de banana

Coisas do SESCTV SOMOS1SÓ


Uma das primeiras cenas do episódio A Cultura e a Casca de Banana traz o encontro entre um homem que vai visitar o zoológico da cidade e, ao se deparar com a jaula do macaco, inicia um breve diálogo com bicho.


   

O documentário questiona e aproxima o comportamento e o papel do homem e sua cultura, com expressão e leitura socioambiental do brasileiro em cruzamento com outros povos e suas culturas. Com roteiro de José Roberto Torero e Gabriella Mancini, o diálogo entre os dois personagens provoca uma tentativa para saber quem é o ser superior da história, momento em que o homem acaba se convencendo que ainda tem muito o que aprender com o macaco, numa discussão entre quem vive melhor, sendo que ambos habitam o mesmo planeta.
Com uma diferença genética menor que 5%, homem (Alex Grulli) e macaco (Daniel Ortega) se encontram em um zoológico da cidade e juntos irão discutir sobre a evolução das espécies, instinto e inteligência, alma e religião. Do diálogo quase que improvável, mas bastante realista, o homem se convence aos poucos que é preciso ter maior respeito com o resto do planeta, com os nossos companheiros de existência e todos os seres vivos. O consultor Eduardo Viveiros traz a reflexão sobre o tema neste episódio.

  A vida em sociedade


Ao contrário do que muitos podem imaginar, o homem não é o único a viver em sociedade. E essa discussão aparece no episódio a conversa no zoológico, o homem tenta provar ao macaco os benefícios que ele têm sobre todos os outros animais e do benefício principal: o de viver em sociedade. O macaco discorda totalmente e conta ao homem, como um primeiro exemplo, sobre a sociedade das formigas. Ela é organizada em sociedade, mantém no topo do formigueiro a rainha, que põe os ovos, depois vem as trabalhadoras que alimentam a chefe e os machos são a terceira casta, não trabalham e a sua função se resume apenas acasalar com as rainhas. Coletivo: pinguins se revesam durante o verão para cuidar dos filhotes Outros exemplos da vida organizada em sociedade ficam por conta de cupins, abelhas e pinguins. A abelha, por exemplo, é incapaz de viver sozinha. Suas colméias são um exemplo de organização social, com as rainhas na função de colocar os ovos, os zangões, que as fecundam, e as operárias, que cuidam de todas as tarefas. Os cupins repartem todas as tarefas, trabalham juntos na construção de casas enormes e resolvem problemas complicados de moradia, como ventilação e drenagem. Já os pinguins, que também vivem em sociedade, dividem tarefa entre macho e fêmea. Ambos se revezam para chocar os filhotes, se reunem em creches e são supervisionados por adultos enquanto os pais saem em busca de comida. Os casais ficam juntos no verão para cuidar dos filhotes e, para identificar os membros de sua família, possuem cantos e danças próprios.

O homem, o macaco e o instinto animal
Em uma das cenas do episódio
Macaco e homem comem bananas sentados no galho de uma árvore.
Há uma escada perto do homem.

MACACO 
Nós dois somos bem parecidos, né? 
 HOMEM 
Ei! 
Vai começar com ofensa? 
 MACACO 
Ofensa, não. Ciência. 
A diferença genética de um homem para um macaco é de menos de cinco por cento. 
 HOMEM 
Só?
 MACACO 
Só. Nós não somos tão diferentes assim. 
Olha bem: Nós dois somos peludos… 
 HOMEM 
Mas o homem inventou a gilete. 
 MACACO 
Nós dois gostamos de banana… 
 HOMEM 
Mas nós inventamos a banana split. 
 MACACO 
Temos quatro patas…
HOMEM 
Mas vocês não usam sapatos. 
 MACACO 
E nós dois temos instinto. 
 HOMEM 
Calma lá! Aí é diferente. Vocês só têm instinto. 
Nós temos instinto e inteligência. 
 MACACO 
Pois meu instinto me diz que vocês não passam de animais. 
 HOMEM 
E minha inteligência me diz que isso não passa de inveja. 
 MACACO 
Inveja de você? 
Tem graça…
 HOMEM 
Você até tenta, mas não consegue estar à minha altura. 
 MACACO 
Tem toda razão. 
 Macaco desce do galho e tira a escada. 
 MACACO 
Fica aí em cima sozinho. 
 HOMEM 
Ei, volta aqui! 
  
E uma das discussões giram acerca da alma do homem branco, dos índios e dos animais. 
Para o consultor Eduardo Viveiro, uma das diferentes concepções de alma tidas pelos brancos e pelos índios está nas seguintes crenças: O índio crê que as almas são iguais e os corpos, diferentes; Os brancos, que os corpos são iguais, mas as almas é que os tornam diferentes. Todos sabemos que muitas atrocidades foram cometidas pelos antigos exploradores quando começaram a circular o mundo em busca de novas riquezas.

Na busca por novos escravos, que o conquistador espanhol Diego Velazquez de Cuellar deixou registrado a ida de uma comissão de teólogos reunidos nas Antilhas, no século XVI, a fim de investigar se os índios tinham alma ou não. Após o estudo, eles decidiram que os índios tinham alma, eram gente ou coisa parecida, o que levou o conquistador espanhol a tomar a decisão de que eles não poderiam mais matar e escravizar o índio como estavam fazendo. A decisão atrapalhou os negócios e rendeu ao explorador uma nova saída: a de importar negros da África. “Globalização é uma coisa antiga”, é o que declara o conquistador espanhol, em depoimento fictício para a Série Somos 1 Só.

 Freud e a história das civilizações narcisistas
Outro depoimento fictício da série Somos 1 Só fica por conta de Sigmund Freud, o inventor da psicanálise. Freud discursa sobre a história das civilizações ocidentais, que nada mais é que uma história de feridas de narcisistas. “O homem se colocava acima de tudo, mas a cada descoberta que fazia descia um patamar em sua escala de grandeza. Ele evita pensar em suas limitações.” No episódio, Freud está na pele do ator Marcos Suchara que realizou junto do diretor Toni Venturi, uma série de ensaios até chegar ao tom de voz, ritmo e sotaques que esperavam para o depoimento. Confira aqui um trecho do ensaio e do discurso do Freud (fictício) para a série Somos 1 Só.







Ai povo foi muito bom vale a pena dar uma acessada no site para ver a programação
e mais um pouco a respeito do episódio acima.
http://www.somos1so.com.br/categorias/cultura/

"Não consigo viver em Preto e Branco"



Irvim D.Yalom in: Quando Nietzsche Chorou

terça-feira, 3 de março de 2015

Liberte um Livro

O livro é a chave que abre a mente. 

Liberte livros, liberte mentes...

A casa da Maria da Luz adere a essa campanha novamente, dessa vez em São Paulo


Abaixo os primeiros que saíram da estante:




sábado, 3 de janeiro de 2015

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Canção da Plenitude



Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)
O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.

Lya Luft

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

E, enquanto costurava outro mundo, perdeu tudo de si. Francisca perdeu o que a fazia Francisca.






Francisca é puta

Assim como se nasce arquiteta, jurista ou artesã, também se nasce puta. Francisca nasceu puta. Mulher. Vadia.Vagabunda. Dada. Puta. Poderia ter escolhido ser dona-de-casa, confeiteira ou até mesmo artista. Mas escolheu ser puta. Gostava de ser a outra. De ser a objeto. De ser a usada. De ser a puta. Gostava de sentir prazer. De falar palavras sujas. De chupar. De dar. De ser puta. Puta. Puta. Puta.
Francisca queria saber o porquê das bonecas não brincarem com bonecos. O porquê de bonecas só poderem brincar de cozinhar e de morar em casinhas. O porquê de meninas só brincarem com bonecas. O porquê de bonecas serem iguais. Padronizadas. Corretas. Bonitas. E ela não ser assim.
Francisca cresceu. E as suas dúvidas, antes infantis, viraram aflições. E as suas vontades e os seus desejos viraram ações. E as bonecas passaram a brincar com bonecos. E Francisca saiu de casa. E deixou mãe, pai, irmão e irmã. E trocou-os pelo outro. Pelo desconhecido. Pelo perigoso. Pelo efêmero. E pela felicidade. E pela completude. E pela satisfação. E abandonou a moral. Os costumes. As definições. E ganhou o olhar torto. O julgamento. O pecado. O fardo. O peso. De estar à margem. De ser o excluído social. O usável. O objeto. O lixo. A mercadoria. A minoria. A sujeira. A puta. E, ainda assim, identificar-se como puta. E reconhecer-se como puta. E declarar-se puta. E chamar-se de puta. Porque Francisca, ao contrário de suas bonecas, é puta.
Puta. Porque saiu de casa. Porque deu. Porque deu para qualquer um. E gostou de dar. Porque seu corpo é um instrumento. Porque seu corpo é uma ferramenta. Porque seu corpo é o que ela quiser. Porque seu corpo pinta. Esculpe. Dança. Encena. Porque seu corpo é arte. E arte não precisa ser bonita. Padronizada. Definida. Precisa ser chocante. Diferente. Impactante. Precisa romper paradigmas. Definições. Preconceitos. Conceitos. Porque a cama é o seu palco. Onde se apresenta. Onde se emociona. Onde se conhece. Onde conhece o outro. Onde goza. Sem nunca ter gozado.
Puta. Porque engravidou. Porque teve filhos. Porque não teve filhos. Porque foi para a rua. E se permitiu ser quem quisesse na rua. Onde viu a catarse. A exaltação. A expressão. Daquilo que não pode ser exposto em casa. Na igreja. No trabalho. E foi Brigitte. E foi Tigresa. E foi Geni. E foi Bruna. E foi Marilyn. E foi Fran. E foi todas elas sem ser ninguém. Porque puta não é gente. Puta não tem nome. Puta é puta. E só.
Puta? Na rua? Vergonha. Desonra. Afronta. Tirem-na daqui. Levem-na daqui. E tiraram. E levaram. E colocaram Francisca, a puta, na masmorra. Porque puta tem que ser presa. Porque puta tem que sofrer. Porque a cidade não precisa de puta. Porque ninguém precisa de puta. Porque ninguém precisa ser puta. Porque ser puta é doença. É loucura. É crime.
Puta. Puta. Puta. E criminosa. E prisioneira. Tirada da rua. Jogada na masmorra. Porque na cadeia se conserta gente-com-defeito. Porque animal vira gente na cadeia. Porque puta aprende a ser gente na cadeia. E, mais do que gente, aprende a ser mulher. Mulher como deveria ser. Como deveria ter aprendido com as bonecas. Como deveria ter aprendido com a mãe. Como deveria ter nascido. Mulher que cozinha. Que varre. Que passa. Que costura. Que é submissa. Que aceita. Que se cala. Que é mulher.
Puta. Puta. Puta. Adapte-se. Ajuste-se. Costure. Isso. Costure. Toma, Francisca. Agulhas. Linha. Pano. Coisa de mulher, Francisca. Vai aprender a ser mulher, Francisca. Essa cadeia vai te dar jeito, Francisca. Vai te consertar, Francisca. Borda. Prega. Costura. Isso vai te ajudar. Vai te transformar. Vai te curar. Vai te fazer normal. Costure, Francisca. Costure. Costure. E Francisca começou a costurar.
Puta. Puta. Isso Francisca, continue. Mais agulhas. Mais linhas. Mais panos. Só lhe resta costurar, Francisca. É o que você pode fazer. É o que você tem que fazer. É o que você é. E Francisca aceitou. E compactuou. E se calou. E Francisca aprendeu a costurar. E costurou pedras. Montanhas. Morcegos. Corujas. Leões. Armas. Bombas. E perdeu parte de si enquanto costurava.
Puta. Mais agulhas. Mais linhas. Mais panos. Mais. Mais. Mais. Costurava. Costurava. Costurava. E costurou flores. Árvores. Frutos. Nuvens. Doces. Borboletas. Pássaros. E uma tigresa. E perdeu ainda mais de si.
Costurou. Costurou. E, enquanto costurava outro mundo, perdeu tudo de si. Francisca perdeu o que a fazia Francisca. O patriarcado e a masmorra a tornaram invisível. Não era costureira. Não era apenas emoção. Não era invisível. Era forte. Era corajosa. Era a frente de seu tempo. Era puta. Mas a padronização reduziu Francisca. Virou um nada. Ficou invisível. Sumiu. Francisca, quantas somem junto com você? Francisca, aonde vocês estão indo? Francisca, que mundo é esse que você costurou? Francisca, lá a Tigresa pode mais do que o Leão? Francisca, lá a Geni ainda é apedrejada? Francisca, lá a Fran não é uma piada? Francisca, lá as Franciscas podem ser putas? Porque, Francisca, aqui ainda tem muitas e muitos ficando invisíveis como você. Porque, Francisca, aqui ainda tem muitas e muitos que querem ser como você. Vadias. Vadios. Vagabundas. Vagabundos. Dadas. Dados. Putas. Putos.


Vinicius Cardoso in Ativismos, idealismos e relativismos

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

...ele pode pensar em ti todos os dias...



Ele pode estar a ver as tuas fotos neste exato momento. Porque não? Passou-se muito tempo. Os detalhes perderam-se. E daí? Pode ser que ele faça todas as coisas que tu fazes, escondida. Sem deixar rasto nem pistas. Talvez ele passe a mão na barba mal feita e sinta saudades do quanto tu gostavas disso. Ou percorra trajetos que eram teus, na tentativa de não deixar que tu te disperses das lembranças. As boas. Por escolha ou fatalidade, pouco importa, ele pode pensar em ti. Todos os dias. E ainda assim preferir o silêncio. Ele pode reler os teus bilhetes, procurar o teu cheiro em outros cheiros. Ele pode ouvir as tuas músicas, procurar a tua voz em outras vozes. Quem nos faz falta acerta o coração como um vento súbito que entra pela janela aberta. Não há escape! Talvez ele perceba que tu fazes falta. E diferença. De alguma forma, numa noite fria. Tu não sabes. Ele pode ser o homem com quem tu passarás aquele tão sonhado Verão em Paris."

Caio Fernando de Abreu