quinta-feira, 30 de junho de 2011



"O maior erro que você pode cometer: É o de ficar o tempo todo com medo de cometer algum." 
 William Shakespeare


“Fiquei triste. Num momento você estava aqui, no outro já não estava. (…)  Para onde foi tudo aquilo? Que tínhamos tão seguro. Tão certos de sua eternidade. Para onde foi, hein? Meu peito, depósito subitamente esvaziado, aperta-se no meio de tanto espaço.Tento identificar o instante, quando o que tínhamos se perdeu. Mas nem sei se o perdemos juntos ou se juntos já não estávamos. Me desespera saber que um amor, um dia desses tão grande, possa ter desaparecido com tanta facilidade. (…)
Deixo registrado esse meu estranho momento. Quando o que devia ser alívio revela-se angústia. E a cabeça não para, vasculhando cantos vazios. Não gosto de perder as minhas coisas, você sabe. E hoje, cercada pela sua ausência, procuro o que procurar. Experimentando o desânimo da busca desiludida. Pois, se um amor como aquele acaba dessa maneira, vale a pena encontrar um outro? Será inteligente apostar tanto de novo? Aposto que você está pouco se lixando para isso tudo. Que seguiu sua vida tranquilamente, como se nada de tão importante tivesse ocorrido. (…)
Então é isso - como sou insuportavelmente romântica, meu Deus. Termino aqui essa história, de minha parte, contando que estas palavras façam jus ao fim do amor que senti. E deixando este testamento de dor, onde me reconheço fraca e irremediável. Porque ainda gostaria de poder acreditar que você nadaria de volta pra mim.”
Fernanda Young

Tenho uma confissão: noventa por cento do que
escrevo é invenção; só dez por cento que é mentira.
Manoel de Barros

Em seu poema Auto-Retrato

Não Só



A vida seria talvez mais fácil
Se te nunca tivesse conhecido.

Menos tristeza cada vez que temos de separar-nos,
Menos medo da próxima separação, e da seguinte…

E menos também desta saudade impotente
Quando não estás por perto, que só quer o impossível
E imediatamente, no próximo instante
E que agora, por não poder ser assim,
Fica abatida e suspira.

A vida seria talvez mais fácil
Se te nunca tivesse conhecido
Mas a minha vida, não seria.
Erich Fried

(Tradução do poema “Nur Nicht”, de Erich Fried, 1921-1988, poeta, tradutor, e ensaista judeu-austríaco)

Os amantes


Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.
Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.
Nada, ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.
E eles quedam mordidos para sempre.
Deixaram de existir mas o existido
continua a doer eternamente.
(“Destruição”. Carlos Drummond de Andrade)

assim será melhor...



Sumi porque só faço besteira em sua presença, fico mudo quando deveria verbalizar, digo um absurdo atrás do outro quandomelhor seria silenciar, faço brincadeiras de mau gosto e sofro antes, durante e depois de te encontrar. Sumi porque não há futuro e isso não é o mais difícil de lidar, pior é não ter presente e o passado ser mais fluido que o ar. Sumi porque não há o que se possa resgatar, meu sumiço é covarde mas atento, meio fajuto meio autêntico, sumi porque sumir é um jogo de paciência, ausentar-se é risco e sapiência, pareço desinteressado, mas sumi para estar para sempre do seu lado, a saudade fará mais por nós dois que nosso amor e sua desajeitada e irrefletida permanência.
Martha Medeiros

“… isso que chamamos de amor, esse lugar confuso entre o sexo e a organização familiar…”



Cansado, cansado. Quase não dormi. E não consigo tirar você da cabeça. Estou te escrevendo porque não consigo tirar você da cabeça. Hesito em dizer qualquer coisa tipo me-perdoe ou qualquer coisa assim. Mas quero te contar umas coisas. Mesmo que a gente não se veja mais. Penso em você, penso em você com força e carinho. Axé.
Foi mau, ontem. Fui mau, também. Menos com você, mais comigo mesmo. Depois não consegui dormir. Me bati pela casa até quase oito da manhã. Teria telefonado para você, não fosse tão inconveniente.

Não era nada com você. Ou quase nada. Estou tão desintegrado. Atravessei o resto da noite encarando minha desintegração. Joguei sobre você tantos medos, tanta coisa travada, tanto medo de rejeição, tanta dor. Difícil explicar. Muitas coisas duras por dentro. Farpas. Uma pressa, uma urgência.E uma compulsão horrível de quebrar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer. Destruir antes que cresça. Com requintes, com sofreguidão, com textos que me vêm prontos e faces que se sobrepõem às outras. Para que não me firam, minto. E tomo a providência cuidadosa de eu mesmo me ferir, sem prestar atenção se estou ferindo o outro também. Não queria fazer mal a você. Não queria que você chorasse. Não queria cobrar absolutamente nada. Por que o Zen de repente escapa e se transforma em Sem? Sem que se consiga controlar.

Te escrevo por absoluta necessidade. Não conseguiria dormir outra vez se não te escrevesse. Zelda, há também o único romance escrito por Zelda Fitzgerald, a mulher de Scott Fitzgerald, que morreu louca, um incêndio, um hospício. Chama-se “Save me the waltz”. “Reserve-me a valsa”, não é lindo? Lembra o Brahma, se se dançasse no Brahma.
Please, save me the waltz.
Fiz fantasias. No meu demente exercício para pisar no real, finjo que não fantasio. E fantasio, fantasio. Até o último momento esperei que você me chamasse pelo telefone. Que você fosse ao aeroporto. Casablanca, última cena. Todas as cartas de amor são ridículas. Esse lugar confuso de que fala Caetano. E eu estava só começando a entrar num estado de amor por você. Mas não me permiti, não te permiti, não nos permiti. Pedro Paulo me dizendo no ouvido “nunca vi essas luz nos seus olhos”.

Não quero me tornar uma pessoa pesada, frustrada, amarga. Não vou me tornar assim. Então vacilo, escorrego e a mania de perfeição virginiana e a estética libriana no dia seguinte me dizem “que vergonha, que vergonha, que vergonha”.
Eu podia dizer que tinha/tínhamos bebido demais. [...]

De repente me passa pela cabeça que você pode estar detestando tudo isso e achando longo e choroso e confuso. Mas eu não quero ter vergonha de nada que eu seja capaz de sentir. Tento não ficar assustado com a idéia que este tempo aqui é curto, que eu vou voltar a São Paulo e que talvez não veja mais você. Sei que não fico assustado demais, e enfrento, e reconstituo os pedaços, a gente enfeita o cotidiano – tudo se ajeita. Menos a morte.
E eu acho que é por isso que te escrevo, para cuidar de ti, para cuidar de mim – para não querer, violentamente não querer de maneira alguma ficar na sua memória, seu coração, sua cabeça, como uma sombra escura. Perdoe a minha precariedade e as minhas tentativas inábeis, desajeitadas, de segurar a maçã no escuro. Me queira bem.

Estou te querendo muito bem neste minuto. Tinha vontade que você estivesse aqui e eu pudesse te mostrar muitas coisas, grandes, pequenas, e sem nenhuma importância, algumas. Fique feliz, fique bem feliz, fique bem claro, queira ser feliz. Você é muito lindo e eu tento te enviar a minha melhor vibração de axé. Mesmo que a gente se perca, não importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas que seja bom o que vier, para você, para mim.
Com cuidado, com carinho grande, te abraço forte e te beijo,
Caio F.

p.s.: Te escrevo, enfim, me ocorre agora, porque nem você nem eu somos descartáveis. 
E amanhã tem sol.


Texto fragmentado de Caio Fernando Abreu

terça-feira, 28 de junho de 2011

Últimas palavras




Os erros por amor já nascem com perdão...


Acordei de madrugada sem me lembrar onde estava. A menina continuava dormindo de costas para mim em posição fetal. Tive a sensação indefinida de que havia sentido a maneira como ela se levantava na escuridão e de ter ouvido a descarga do banheiro, mas bem que podia ter sido um sonho. Foi algo novo para mim. Ignorava as manhas da sedução e sempre tinha escolhido ao acaso as noivas de uma noite, mais pelo preço que pelos encantos, e fazíamos amores sem amor, meio vestidos na maior parte das vezes e sempre na escuridão para imaginar-nos melhores. Naquela noite descobri o prazer inverossímel de contemplar, sem angústias do desejo e os estorvos do pudor, o corpo de uma mulher adormecida.

Gabriel García Márquez 

Trecho do livro- Memória de minhas putas tristes

Sempre...




Você não sabe,
Mas está comigo
Neste canto.
Eu quero lhe dizer
Dos encontros que tivemos
Sem que fosse preciso estarmos juntos.
E agora, é um desses instantes
Que a mim
Chega com som de sacramento,
E que não importa onde você esteja,
Porque eu o alcanço em pensamento
Com toda a maciez deste momento.
E então, lindo menino,
Quero lhe dar o que
Me vai na alma...
Leve com você este suspiro rosa,
Leve com você o meu pensar azul,
O meu sorriso verde,
Este carinho branco,
O meu olhar brilhante,
Esta paixão dourada.
Leve com você, nesta hora,
Com muita força e calor,
Aquilo em que me transformo
Para você...
Um arco-íris do amor.

Roberto Shinyashiki

segunda-feira, 27 de junho de 2011

“Embriagai-vos”


É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo, que vos abate e vos faz  pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha. Contanto que vos embriagueis. E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um  fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a  embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda,  à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que  rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas  são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de  vos responder: É hora de se embriagar! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.
(Baudelaire)

O LAGO MORTO



O lago morto, o céu cinzento ao luar;
Pálida, lutando, coberta pelas nuvens,
A lua.

O murmúrio obstinado que cochicha e passa
(Dir-se-ia que tem medo de falar em alta voz).
Tão triste agora,
Recai sobre meu coração,
Onde a alegria morre como um rio deserto.

Minhas pobres alegrias...
Não as toqueis,
Floridas e sorridentes.

Lentamente, a raiz acaba de morrer.

Emily Brontë, 1846
(Tradução de Lúcio Cardoso)

O morro dos ventos uivantes, Emily Brontë


"Se tudo perecesse, mas ele ficasse, eu continuaria a existir. E, se tudo permanecesse e ele fosse aniquilado, o mundo inteiro se tornaria para mim uma coisa totalmente estranha..."
(Emily Brontë | O Morro dos ventos Uivantes")


"Se você viver até os 100 anos, espero viver até ter 100 anos menos um dia, para que eu nunca precise viver sem você".

"- Que ela desperte em meio dos tormentos! Será que ela mentiu até o fim?! Onde está ela? Lá não... no céu não... consumida não... onde? Oh! Tu dizias que não davas importância a meus sofrimentos! E eu, eu rezo uma oração... hei de repeti-la até que minha língua se entorpeça... Catherine Earnshaw, possas tu não encontrar sossego enquanto eu tiver vida! Dizes que te matei, persegue-me, então! A vítima persegue seus matadores, creio eu. Sei que fantasmas têm vagado pela terra. Fica sempre comigo... encarna-te em qualquer forma... torna-me louco! Só não quero que me deixes nesse abismo, onde não te posso encontrar! Oh, Deus! É inexprimível! Não posso viver sem a minha vida! Não posso viver sem a minha alma!"

Acho que também deveria privar-me mais...





"Privamo-nos para mantermos a nossa integridade, poupamos a nossa saúde, a nossa capacidade de gozar a vida, as nossas emoções, guardamo-nos para alguma coisa sem sequer sabermos o que essa coisa é. E este hábito de reprimirmos constantemente as nossas pulsões naturais é o que faz de nós seres tão refinados. Porque é que não nos embriagamos? Porque a vergonha e os transtornos das dores de cabeça fazem nascer um desprazer mais importante que o prazer da embriaguez. Porque é que não nos apaixonamos todos os meses de novo? Porque, por altura de cada separação, uma parte dos nossos corações fica desfeita. Assim, esforçamo-nos mais por evitar o sofrimento do que na busca do prazer."
Sigmund Freud, in 'As Palavras de Freud'

Angustia





Tortura do pensar! Triste lamento! 
Quem nos dera calar a tua voz! 
Quem nos dera cá dentro, muito a sós, 
Estrangular a hidra num momento! 



E não se quer pensar! ... e o pensamento 
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós ... 
Querer apagar no céu – ó sonho atroz! – 
O brilho duma estrela, com o vento! ... 

E não se apaga, não ... nada se apaga! 
Vem sempre rastejando como a vaga ... 
Vem sempre perguntando: “O que te resta? ...” 

Ah! não ser mais que o vago, o infinito! 
Ser pedaço de gelo, ser granito, 
Ser rugido de tigre na floresta! 

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

Quem tenta ajudar a borboleta
a sair do casulo a mata.
Quem tenta ajudar um broto
a sair da semente o destrói. Há certas coisas que
não podem ser ajudadas.
Tem que acontecer
de dentro para fora.

Rubem Alves

O contrário do amor





O contrário de bonito é feio, de rico é pobre, de preto é branco, isso se aprende antes de entrar na escola. Se você fizer uma enquete entre as crianças, ouvirá também que o contrário do amor é o ódio. Elas estão erradas. Faça uma enquete entre adultos e descubra a resposta certa: o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença.


O que seria preferível, que a pessoa que você ama passasse a lhe odiar, ou que lhe fosse totalmente indiferente? Que perdesse o sono imaginando maneiras de fazer você se dar mal ou que dormisse feito um anjo a noite inteira, esquecido por completo da sua existência? O ódio é também uma maneira de se estar com alguém. Já a indiferença não aceita declarações ou reclamações: seu nome não consta mais do cadastro.

Para odiar alguém, precisamos reconhecer que esse alguém existe e que nos provoca sensações, por piores que sejam. Para odiar alguém, precisamos de um coração, ainda que frio, e raciocínio, ainda que doente. Para odiar alguém gastamos energia, neurônios e tempo. Odiar nos dá fios brancos no cabelo, rugas pela face e angústia no peito. Para odiar, necessitamos do objeto do ódio, necessitamos dele nem que seja para dedicar-lhe nosso rancor, nossa ira, nossa pouca sabedoria para entendê-lo e pouco humor para aturá-lo. O ódio, se tivesse uma cor, seria vermelho, tal qual a cor do amor.

Já para sermos indiferentes a alguém, precisamos do quê? De coisa alguma. A pessoa em questão pode saltar de bung-jump, assistir aula de fraque, ganhar um Oscar ou uma prisão perpétua, estamos nem aí. Não julgamos seus atos, não observamos seus modos, não testemunhamos sua existência. Ela não nos exige olhos, boca, coração, cérebro: nosso corpo ignora sua presença, e muito menos se dá conta de sua ausência. Não temos o número do telefone das pessoas para quem não ligamos. A indiferença, se tivesse uma cor, seria cor da água, cor do ar, cor de nada.

Uma criança nunca experimentou essa sensação: ou ela é muito amada, ou criticada pelo que apronta. Uma criança está sempre em uma das pontas da gangorra, adoração ou queixas, mas nunca é ignorada. Só bem mais tarde, quando necessitar de uma atenção que não seja materna ou paterna, é que descobrirá que o amor e o ódio habitam o mesmo universo, enquanto que a indiferença é um exílio no deserto. 

domingo, 26 de junho de 2011

ela sempre esquece......



“E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará. A moça que não era Capitu, mas também tem olhos de ressaca - levanta e segue em frente. Não por ser forte, e sim pelo contrário… por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda. Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo.”

 Caio Fernando Abreu.

Futuros Amantes

Chico Buarque - Eu Te Amo



LINDO CHICO, LINDO DEMAIS!!!!

Chico Buarque lê Álvaro de Campos

Poema da necessidade




























É preciso casar João,
é preciso suportar, Antônio,
é preciso odiar Melquíades
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbado,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar O FIM DO MUNDO.

Carlos Drummond de Andrade

Só tinha de ser com você


“E de te amar assim, muito a amiúde, é que um dia de repente 
hei de morrer de amar mais do que pude.” 
Vinicius de Morais


"Pavese cometia erros mais graves que os nossos. Porque os nossos erros eram gerados por impulso, imprudência, estupidez e candura; e os erros de Pavese, ao contrário, nasciam da prudência, da astúcia, do raciocínio e da inteligência. Nada é tão perigoso como essa espécie de erro. Podem ser mortais, como foram para ele, porque é difícil voltar pelos caminhos em que se errou por astúcia. Os erros que se cometem por astúcia envolvem-nos estreitamente: a astúcia finca em nós raízes mais profundas do que a irreflexão ou a imprudência: como se desprender desses laços tão tenazes, tão apertados, tão profundos? A prudência, o raciocínio, a astúcia têm o rosto da razão: o rosto, a voz amarga da razão, que argumenta com seus argumentos infalíveis, aos quais não há nada a responder, só a concordar."

Natalia Ginzburg - Léxico Familiar

Soneto 96



De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça. Amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera
Ou se vacila ao mínimo temor.

Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
È astro que norteia a vela errante
Cujo valor se ignora, lá na altura.

Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfanje não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,

Antes se afirma, para a eternidade.
Se isto é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.

William Shakespeare


Há dois tipos de pessoas: as que fazem as coisas e as que ficam com os louros. Procure ficar no primeiro grupo: há menos competição por lá.  
Indira Gandhi

sábado, 25 de junho de 2011

As Minhas Rosas



Sim! a minha ventura quer dar felicidade; 
Não é isso que deseja toda a ventura? 
Quereis colher as minhas rosas? 
Baixai-vos então, escondei-vos, 
Entre as rochas e os espinheiros, 
E chupai muitas vezes os dedos. 
Porque a minha ventura é maligna, 
Porque a minha ventura é pérfida. 
Quereis apanhar as minhas rosas? 

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

Tempos Modernos





Quino, cartunista argentino "pai" da Mafalda, desiludido com esses tempos quanto a valores e educação, expressou seu sentimento 
nesse "cartum". (by RobVal)

Porque hoje ainda é sábado :)











sexta-feira, 24 de junho de 2011

Só assim...


“Quando a gente olha para as coisas grandes, a situação política, o aquecimento global, a pobreza do mundo, tudo parece mesmo horrível, nada está melhorando, não há nada de bom para esperar. Mas então eu penso nas coisas pequenas, próximas... sabe como é, uma garota que acabei de conhecer, ou essa música que a gente vai tocar […], e aí parece ótimo. Então o meu lema será este: pense nas coisas pequenas.”
 Do livro: Sábado de Ian McEwan

Sándor Márai


" Não é verdade que o sofrimento nos purifica, nos faz melhores, mais sábios e compreensivos. Nós nos tornamos frios, iniciados e indiferentes. Quando compreendemos, pela primeira vez na vida, o destino, nos tornamos quase serenos. Serenos e solitários no mundo, de um modo singular e assustador."
Sándor Márai

Eis um bom conselho



Novamente...

Minha proposta




Minha proposta é a Liberdade Absoluta. Eu venho aqui para semear discórdia, quebrar paradigmas, espicaçar padrões. Não trago nenhuma resposta pronta: só faço perguntas. Em verdade, eu quero mesmo é mexer na tua cabeça gloriosa, por fora e por dentro — poeticamente. Fazer um cafuné maluco e delicioso nos teus neurônios enrolados. Passar um pente fino nos caracóis da tradição.
Quero questionar tuas verdades mais queridas.
Chacoalhar tuas convicções.

Não vim te propor sossego — nem venho te trazer a paz.
Eu apenas te convido a ter coragem.
Te convido a um salto profundo.

Um salto escandalosamente profundo.

Edson Marques*
Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro... Há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma em boi. Assim fiquei eu... Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões.
Cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim.
E com isso cortei também a minha força.
Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você -
respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você -
não copie uma pessoa ideal,
copie você mesma - é esse seu único meio de viver.
Juro por Deus que, se houvesse um céu,
uma pessoa que se sacrificou por covardia
ia ser punida e iria para um inferno qualquer.
Se é que uma vida morna não é ser punida por essa mesma mornidão.
Pegue para você o que lhe pertence,
e o que lhe pertence é tudo o que sua vida exige.
Parece uma vida amoral.
Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma.
Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber.
Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade da alma.

Minha pergunta


Pronto já empaquei com a terapia. Minha terapeuta é muito simplista. 
Aquela coisa de falar que as pessoas são boas, que tenho que ser mais pratica fazer as pazes com a família e com meu passado. Arrumar um trabalho, me dedicar ao meu casamento. Voltar estudar e desencanar. 
Claro é tudo isso que quero, mas se eu conseguisse sozinha não iria até lá. 
E meus bloqueios? Não se fala a respeito de meus bloqueios eu não vou desbloquear sozinha. 
E sem desbloquear não consigo ver essa praticidade da vida. 
O que mais se ouve por aí é: “Não a vida é simples a gente que complica”. Sim, exato, chegamos ao ponto, a gente complica. Complicou ta complicado. Partindo desse ponto, desse onde complicamos, pois sempre complicamos, logo ficou complicado. A vida complicada, não importa se complicamos ou se ele se complicou sozinha. E agora? Essa e a pergunta?
Para que não me firam, minto (...) 
E tomo a providência cuidadosa de eu mesmo me ferir, 
sem prestar atenção se estou ferindo o outro também. 
Caio F.



Ilha da fantasia



(...) Era uma ilha onde o sol predominava e o mar era igualzinho ao da Praia do Sancho, em Fernando de Noronha. Os habitantes tinham diversas profissões. Eram médicos, dentistas, engenheiros e professores que ajudavam uns aos outros com seus conhecimentos, mas que dedicavam a maior parte do tempo realizando sonhos adiados: pintar quadros, escrever livros, fotografar, fazer teatro. Namoravam. As relações formais haviam ficado no passado, agora se dedicavam a valorizar apenas o sexo e a boa companhia, passava a ser esse o ideal romântico.

A ilha não ficava muito longe do continente. Uma vez por semana desembarcavam na ilha revistas, livros, remédios, especiarias, vinhos. Jornais eram dispensados. A população já havia vivido o suficiente para saber que nada é original, tudo se repete. Havendo música, livros, sexo e esporte, dava-se o luxo de dispensar as notícias.

Posto de saúde, um só, mas muito bem equipado. Uma única pousada. O cinema era na rua, a céu aberto, numa praça. O principal produto de exportação eram as flores, que brotavam abundantemente na ilha. O meio de transporte era a bicicleta. Havia uma orquestra sinfônica, a mais desafinada e alegre que já existiu. A internet era usada com muita moderação, apenas para troca de mensagens com os “estrangeiros”, e os celulares eram esquecidos dentro das gavetas. Como sobreviviam? Mais de permuta do que de lucro. Quem sabia fazer alguma coisa trocava por aquilo que não sabia. E os dias corriam vagarosos e sem qualquer espécie de patrulha. As leis eram regidas pelo bom senso e estavam relacionadas apenas à limpeza, ao respeito à liberdade e à segurança. Ninguém era avaliado pela aparência, todos tinham talento para a poesia e a velhice não era temida, já que estavam todos satisfeitos demais para prestar atenção em idade.

Uma fantasia, permita-me, para combater a força bruta destes dias que andam realistas demais.
 Martha Medeiros



Quem quiser ler na íntegra: http://www.clicrbs.com.br

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Porque eu voltei?


Se no mínimo essa volta vai de cara chatear umas três pessoas (queridas)?
Se eu nem tenho certeza se quero permanecer por lá? 
Se sinto que não me encaixo? 
Se não vejo muito sentido nessa volta? Talvez seja por tudo isso. 
Por essa confusão que isso me causa. 
E porque me causa confusão se é algo tão simples e banal? Não sei, não tenho respostas, apenas perguntas. Mas enquanto não conseguir simplificar isso, não consigo deixar de lado. Talvez esteja aí a resposta para a volta. 
Ou será por pura exibição, vaidade, curiosidade, birra, excesso de tempo ócio e carência? 
Não sei, só sei que voltei ao Facebook hoje pela nonagésima oitava vez... 
Se eu tenho algum problema? 
Sim é claro que tenho e sempre deixei isso bem claro. 

Eu e todo o resto desse mundo...

terça-feira, 21 de junho de 2011

Mulheres que amam demais



Prefácio

Quando amar significa sofrer, estamos amando demais. Quando grande parte de nossa conversa com amigas íntimas é sobre ele, os problemas, os pensamentos, os sentimentos dele — e aproximadamente todas as nossas frases se iniciam com "ele...", estamos amando demais.

Quando desculpamos sua melancolia, o mau humor, indiferença ou desprezo como problemas devidos a uma infância infeliz, e quando tentamos nos tornar sua terapeuta, estamos amando demais. Quando lemos um livro de auto-ajuda e sublinhamos todas as passagens que pensamos que irão ajudá-lo, estamos amando demais.

Quando não gostamos de muitas de suas características, valores e comportamentos básicos, mas toleramos pacientemente, achando que, se ao menos formos atraentes e amáveis o bastante, ele irá se modificar por nós, estamos amando demais.

Quando o relacionamento coloca em risco nosso bem-estar emocional, e talvez até nossa saúde e segurança física, estamos definitivamente amando demais. Apesar de toda a dor e insatisfação, amar demais é uma experiência tão comum para muitas mulheres, que quase acreditamos que é assim que os relacionamentos íntimos devem ser.

A maioria de nós amou demais ao menos uma vez, e, para muitas, está sendo um tema repetido na vida. Algumas nos tornamos tão obcecadas por nosso parceiro e nosso relacionamento, que quase não somos capazes de agir.

(...) o fato de querermos amar, de ansiarmos por amor ou de amar em si torna-se um vício. Vício é uma palavra assustadora. Ela evoca imagens do dependente de heroína espetando agulhas nos braços e levando uma vida obviamente autodestrutiva. Não gostamos da palavra e não gostamos de aplicar o conceito à forma de nos relacionarmos com homens. Mas muitas de nós fomos viciadas em um homem e, como qualquer outra pessoa viciada, temos que admitir a seriedade de nossos problemas para que possamos empreender a recuperação.

Se você já ficou obcecada por um homem, você deve ter suspeitado que a essência daquela obsessão não era amor, e sim medo. Nós que amamos obsessivamente somos cheias de medo — medo de estarmos sozinhas, medo de não termos valor nem merecermos amor, medo de sermos ignoradas, abandonadas ou destruídas. Damos nosso amor na esperança de que o homem por quem estamos obcecadas cuide de nossos medos. Ao invés disso, os medos — e nossas obsessões — aprofundam-se, até que dar amor para obtê-lo de volta torna-se uma força propulsora em nossas vidas. E porque nossa estratégia não surte efeito, esforçamo-nos e amamos ainda mais. Amamos demais.
Robin Norwood

AMOR?


Download: aqui

Viver é muito perigoso



"Viver é muito perigoso. Porque aprender a viver é que é o viver mesmo. Travessia perigosa, mas é a da vida... O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo é um saber definido do que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra."

Guimarães Rosa 

Como as coisas por aqui estão longe de serem politicamente corretas:



Sete coisas para um fumante fazer depois da lei anti-fumo
Por Claudio R. S. Pucci

1. Sinta-se um adolescente: lembra quando você tinha 15 anos de idade e fumava escondido dos seus pais? Esses bons tempos voltaram. Se além de fumante, é paulistano e utiliza ônibus fretado, use camiseta furada e corte de cabelo moicano, porque você é um legítimo punk, totalmente anti-social.

2. Ande de guarda-chuva: como você não pode fumar debaixo de qualquer área coberta, é bom estar preparado para eventuais chuviscos e tempestades. Se sua criatividade for boa o suficiente, adote o terno preto e o chapéu coco. Alie o traje à névoa causada pela poluição dos ônibus e carros, e sinta-se em Londres.

3. Filie-se a uma torcida organizada: una duas paixões em uma só, mesmo porque fumar em estádios é liberado.

4. Faça reuniões em casa: reúna os amigos para uma cervejada ou festival da caipirinha. Aquele que começa com vodca de primeira e termina com pinga de segunda. O bacana é que as sacadas de apartamento estão liberadas, apesar de possuírem (mais um termo bacana para discussão) marquises, então se sinta burlando a lei. Se os vizinhos ou síndico reclamarem, convide-os para a festa.

5. Procure bares onde fumar é permitido: o site aquipode.org dá a lista de locais onde é possível fumar em São Paulo, já que possuem locais abertos e com ventilação. É um ótimo guia para quem não dispensa o companheiro nicotinoso em meio ao bate-papo e não quer ser detonado por quem odeia o cigarro.

6. Deixe de ser tímido: a lei acabou obviamente desenvolvendo uma ligação forte entre os fumantes, ou seja, todo mundo está no mesmo barco. Assim, tenha sempre seu isqueiro à mão, converse à vontade com outro apreciador de tabaco e imagine quantos novos amigos (e amigas) você não pode fazer a cada escapadela.

7. PENSE EM PARAR: ironias à parte, agora pode ser uma ótima hora de encerrarmos esse hábito que nos deixa, no mínimo, sem fôlego e fedendo. Embora a ciência e a medicina já tenha declarado, em algum momento, que o ovo, o refrigerante, o sanduíche, a poluição, a carne vermelha, a bebida alcoólica, o leite de soja, falar ao celular, o glúten, trabalhar demais, dormir de menos, fast food, forno de microondas, exercício em excesso, pouco exercício, compartilhar a cama, calcinha de tecido sintético, açúcares, adoçantes e até fumaça de incenso sejam prejudiciais à saúde, o cigarro ainda figura como um dos campeões de morte no mundo. Só que faça isso por você e não pelo patrulhamento ideológico da coisa toda.
:)

Só quero que você me aqueça nesse inverno...

Campanha do Agasalho 2011


Vamos nos aquecer aquecendo o próximo. 


Fazendo um inverno aquecido pelo amor e pela fraternidade!

Doe agasalho, doe ouvido, doe AMOR....

segunda-feira, 20 de junho de 2011

As 10 mãos da mente


A mente é muita habilidosa na arte enganar e, para isso ela usa muitas mãos. A mãos mais habilidosas e mais perigosas da mente são dez e cada uma tem um nome:

1ª- Oportunismo: Essas mãos nos tira a capacidade de usarmos nossas próprias habilidades e faz com que usemos pessoas e situações para tentarmos chegar onde queremos;

2ª- Medo: Essa nos prende sugerindo perigo, fazendo-nos dar um passo para trás quando decidimos ir de encontro à realização de nossos anseios;

3ª-Inveja: É mão que nos empurra para baixo, que nos leva a fazer comparações, que nos faz perder quando nos comparamos.Ela nula nosso auto-apoio;

4ª- Hipocrisia: É aquela mão que desdenha a crença de que falsas palavras de afetos e falsos sorrisos de compreensão nos darão a garantia de que sempre poderemos usar e abusar daqueles que acreditam em nós;

5ª- Preocupação: Essa tem extrema habilidade para pintar de negro tudo aquilo que esperamos do futuro. Ela nos rouba a Fé e a segurança de que tudo está sendo cuidadosamente amparados pela mãos de Deus;

6ª- Orgulho: É a mão que põe mais dor em nossa vida... È ela que retém a mágoa, o ódio e desejo de vingança;

7ª- Chantagem: Essa mão nos toca e nos faz apontar pessoas que nos amam como sendo as responsáveis por intranquilidades que, na maioria das vezes são causadas por nós mesmos;

8ª- Cobrança: É ela essa mão que nos furta o prazer de fazer o Bem sem olhar a quem;

9ª- Vitimismo: É aquela que nos pode levar para o fundo do poço. Ela nos induz a acreditar que tudo e todos são culpados pelas nossas dificuldades;

10ª- Culpa: Como um sinistro feiticeiro, essa mão descontrola nosso mundo interior, fazendo com que acreditemos que quando respeitamos nossas próprias vontades, entramos no jogo de crime e castigo, nós nos punimos e nos maltratamos, quando acreditamos nela;

Quando essas mãos entram em ação, temos que amputá-las, usando as mãos de todo Bem que há dentro de nós e que, apesar delas se esforçam para mostrar sua grandeza. E quando chegamos à definitiva conclusão que essa grandeza está pronta para manifestar-se em qualquer momento, as 10 Mãos da Mente já não terão poder sobre nós.

Afinal, se não dominarmos a nossa mente, ela nos escravizará, e não é isso que desejamos para nossa vida...ou é?


Compartilhado do recanto Vamos Meditar da amiga Nilvania Melhorança.

A psicologia do ciúme é fascinante.




Há uma situação curiosa que conta muito sobre ciúme obsessivo.
Ele, o marido, submetido a uma situação limite, resiste. Não sai com a atriz.
Ela, a ciumenta, submetida também a uma situação limite, não resiste. Cede.
A psicologia do ciúme é fascinante. O ciumento em geral enxerga a si mesmo no outro – sua fragilidade e vulnerabilidade diante de tentações. Acha que o outro vai fazer exatamente o que ele faria.

E então agride o parceiro porque a si próprio não dá.”


Fonte:http://fabiohernandez.wordpress.com/2011/02/16/sobre-o-ciume/

Caspar David Friedrich: "Mujer ante el ocaso" (1818).

"Es fácil comprender a un niño que le teme a la oscuridad, pero la gran tragedia de la vida es cuando los adultos tienen miedo de la luz"
Platón


Minha solidão não tem nada a ver com a presença ou ausência de pessoas… Detesto quem me rouba a solidão, sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia….” 
Friedrich Nietzsche

De tanto olhar o sol




De tanto olhar o sol, 
queimei os olhos,
De tanto amar a vida enlouqueci.
Agora sou no mundo esta negrura.
À procura
Da luz e do juízo que perdi.


Miguel Torga

Amar


Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade

domingo, 19 de junho de 2011

O amor acaba



Por Paulo Mendes Campos

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

Texto extraído do livro O amor acaba.


Fonte: releituras.com
 

Preciso Dizer que te Amo

Ausência


Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.


Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.


Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz perenizada.
Vinícius de Moraes

Meu erro

O medo do Amor


Medo de amar? 
Parece absurdo, com tantos outros medos que temos que enfrentar: medo da violência, medo da inadimplência, e a não menos temida solidão, que é o que nos faz buscar relacionamentos. Mas absurdo ou não, o medo de amar se instala entre as nossas vértebras e a gente sabe por quê.
O amor, tão nobre, tão denso, tão intenso, acaba. Rasga a gente por dentro, faz um corte profundo que vai do peito até a virilha, o amor se encerra bruscamente porque de repente uma terceira pessoa surgiu ou simplesmente porque não há mais interesse ou atração, sei lá, vá saber o que interrompe um sentimento, é mistério indecifrável. 

Mas o amor termina, mal-agradecido, termina, e termina só de um lado, nunca se encerra em dois corações ao mesmo tempo, desacelera um antes do outro, e vai um pouco de dor pra cada canto. Dói em quem tomou a iniciativa de romper, porque romper não é fácil, quebrar rotinas é sempre traumático. Além do amor existe a amizade que permanece e a presença com que se acostuma, romper um amor não é bobagem, é fato de grande responsabilidade, é uma ferida que se abre no corpo do outro, no afeto do outro, e em si próprio, ainda que com menos gravidade.

E ter o amor rejeitado, nem se fala, é fratura exposta, definhamos em público, encolhemos a alma, quase desejamos uma violência qualquer vinda da rua para esquecermos dessa violência vinda do tempo gasto e vivido, esse assalto em que nos roubaram tudo, o amor e o que vem com ele, confiança e estabilidade. Sem o amor, nada resta, a crença se desfaz, o romantismo perde o sentido, músicas idiotas nos fazem chorar dentro do carro.

Passa a dor do amor, vem a trégua, o coração limpo de novo, os olhos novamente secos, a boca vazia. Nada de bom está acontecendo, mas também nada de ruim. Um novo amor? Nem pensar. Medo, respondemos.
Que corajosos somos nós, que apesar de um medo tão justificado, amamos outra vez e todas as vezes que o amor nos chama, fingindo um pouco de resistência mas sabendo que para sempre é impossível recusá-lo.

Fonte:Pensador