segunda-feira, 27 de junho de 2011

“Embriagai-vos”


É necessário estar sempre bêbado. Tudo se reduz a isso; eis o único problema. Para não sentirdes o horrível fardo do Tempo, que vos abate e vos faz  pender para a terra, é preciso que vos embriagueis sem cessar. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha. Contanto que vos embriagueis. E, se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um  fosso, na desolada solidão do vosso quarto, despertardes, com a  embriaguez já atenuada ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda,  à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que  rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai-lhes que horas  são; e o vento, e a vaga, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de  vos responder: É hora de se embriagar! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem tréguas! De vinho, de poesia ou de virtude, a vossa escolha.
(Baudelaire)

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