sexta-feira, 24 de junho de 2011

Ilha da fantasia



(...) Era uma ilha onde o sol predominava e o mar era igualzinho ao da Praia do Sancho, em Fernando de Noronha. Os habitantes tinham diversas profissões. Eram médicos, dentistas, engenheiros e professores que ajudavam uns aos outros com seus conhecimentos, mas que dedicavam a maior parte do tempo realizando sonhos adiados: pintar quadros, escrever livros, fotografar, fazer teatro. Namoravam. As relações formais haviam ficado no passado, agora se dedicavam a valorizar apenas o sexo e a boa companhia, passava a ser esse o ideal romântico.

A ilha não ficava muito longe do continente. Uma vez por semana desembarcavam na ilha revistas, livros, remédios, especiarias, vinhos. Jornais eram dispensados. A população já havia vivido o suficiente para saber que nada é original, tudo se repete. Havendo música, livros, sexo e esporte, dava-se o luxo de dispensar as notícias.

Posto de saúde, um só, mas muito bem equipado. Uma única pousada. O cinema era na rua, a céu aberto, numa praça. O principal produto de exportação eram as flores, que brotavam abundantemente na ilha. O meio de transporte era a bicicleta. Havia uma orquestra sinfônica, a mais desafinada e alegre que já existiu. A internet era usada com muita moderação, apenas para troca de mensagens com os “estrangeiros”, e os celulares eram esquecidos dentro das gavetas. Como sobreviviam? Mais de permuta do que de lucro. Quem sabia fazer alguma coisa trocava por aquilo que não sabia. E os dias corriam vagarosos e sem qualquer espécie de patrulha. As leis eram regidas pelo bom senso e estavam relacionadas apenas à limpeza, ao respeito à liberdade e à segurança. Ninguém era avaliado pela aparência, todos tinham talento para a poesia e a velhice não era temida, já que estavam todos satisfeitos demais para prestar atenção em idade.

Uma fantasia, permita-me, para combater a força bruta destes dias que andam realistas demais.
 Martha Medeiros



Quem quiser ler na íntegra: http://www.clicrbs.com.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário