domingo, 28 de agosto de 2011




"Em mim todas as afeições se passam à superfície, mas sinceramente. Tenho sido actor sempre, e a valer. Sempre que amei, fingi que amei, e para mim mesmo o finjo."


Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Fama e narcisismo





Na conversa leiga, "Fulano é narcisista" significa que ele adora se ver no espelho e nunca pensa nos outros.

Na clínica, o sentido da expressão é diferente: o traço dominante da "personalidade narcisista" é a insegurança. Narcisista é quem está sempre se questionando: "O que os outros enxergam em mim? Será que gostam do que vêem?".

Em ambos os casos, o narcisista se preocupa com sua imagem. Mas, na conversa leiga, ele seria apaixonado por ela (como o Narciso do mito), enquanto, segundo a clínica, ele seriadramaticamente atormentado pelo sentimento de que sua imagem depende do olhar dos outros.

De fato, a clínica tem razão: no espelho, enxergamos sempre e apenas o que os outros vêem (ou o que imaginamos que eles vejam). O mesmo mal-entendido aparece quando a gente constata que vive numa "sociedade narcisista".


Na conversa leiga, essa constatação soa como uma queixa moral: estaríamos vivendo no mundo do "cada um por si". A clínica sugere o contrário: numa sociedade narcisista, cada um depende excessivamente dos outros. Somos desprovidos de essência: sou filho SE meus pais me amam, sou pai SE meus filhos gostam de mim, sou psicanalista SE pacientes e colegas me reconhecem, sou colunista SE você agüentou ler até aqui.O espelho que nos define não é o de Narciso, é o da bruxa de Branca de Neve, um espelho que interrogamos, ansiosos.

Ora, recentemente, assisti, fascinado, ao processo de seleção da sexta temporada do programa "American Idol" (no canal Sony). É um programa parecido com "Fama", da Globo de dois ou três anos atrás, e com "Ídolos", do SBT. Trata-se de descobrir novos cantores e cantoras.

O vencedor é eleito pelo público da TV, mas o que me cativou foi a longa fase inicial, em que os finalistas são selecionados por um júri, entre milhares de jovens concorrentes.
Todos os candidatos parecem entusiasticamente certos de que serão o futuro ídolo, mas a audição da grandíssima maioria é propriamente constrangedora.

No mesmo canal, há outro programa parecido: "American Inventor", em que desfilam inventores convencidos de que seu achado mudará o mundo, mesmo que se trate da máquina acariciadora de cachorro para dono preguiçoso (uma das invenções propostas).

O que leva milhares de sujeitos a encarar uma espécie de humilhação pública? Será que eles são narcisistas à moda da conversa leiga, enamorados de si mesmos a ponto de perder toda autocrítica? Por algum milagre do amor materno, eles guardariam uma imagem de si positiva e imperturbável: "Deixe o mundo falar, pois eu fui, sou e sempre serei o ídolo da minha mãe" (alguns concorrentes, aliás, compareciam acompanhados por uma mãe embevecida).

É possível. Mas, nas palavras de muitos candidatos entrevistados, aparecia outra coisa: uma vontade dolorosa de despertar um olhar de reconhecimento não só no público, mas nos seus familiares, ausentes e indiferentes. Era como se eles estivessem dispostos a qualquer coisa para deixar, enfim, de ser invisíveis: "Riam de mim, mas ao menos me vejam". Pode parecer paradoxal que alguém tente chamar a atenção (do pai, da mãe, da irmã e do mundo) expondo-se ao ridículo e ao fracasso.

Mas, aparentemente, acontece que escárnio e zombaria são um preço aceitável por um (triste) momento de fama.

Uma analogia talvez nos ajude a entender. As estatísticas dizem que há mais jovens que adultos delinqüentes. Justificação tradicional (além da "testosterona" da adolescência): os jovens andam em grupo.

Portanto, é freqüente, no caso deles, que haja mais de um réu por crime.


Certo. Mas também tudo indica que os jovens delinqüentes são presos mais facilmente que os adultos. Não é imperícia: parece que, de uma certa forma, eles se deixam prender, como se seu gesto transgressor tivesse como finalidade última o encontro com a polícia e o juiz. Por quê?

Para a dramática insegurança do narcisismo (aqui no sentido clínico), uma condenação ou um fracasso humilhante apresentam uma vantagem parecida: ambos são preferíveis ao silêncio do outro. Num mundo em que a gente só existe pelo olhar alheio, a invisibilidade é mais intolerável do que o escárnio ou a prisão.

Em uma "sociedade narcisista", a invisibilidade é mais intolerável que a prisão


por Contardo Calligaris * Texto publicado em 15/3/2007 na Folha de São Paulo



Atenção mulheres




"Os homens tem sempre uma vida dupla. Eles tem sempre um lado B. É por isso que eles são sempre mais distantes da vida concreta do que as mulheres. As mulheres tem uma relação com o aqui e o agora que lhes permite lidar com uma série de situações diante das quais o homem é muito mais incapacitado porque ele tem uma presença constante do lado B. E não é só o lado B sexual, o lado B de qualquer coisa, o lado B do devaneio do que ele poderia ter sido, vir-a-ser, ou simplesmente ser. Se as mulheres soubessem o que se passa na cabeça de um homem, inclusive no momento em que ele está transando com ela, eu acho que elas levantariam da cama ultrajadas".

Contardo Calligaris

Clarice



 “Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar, mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar”.

Clarice Lispector - A paixão segundo G.H

Eu dificilmente consigo



''Apesar que nem tudo que se pensa precisa ser falado pronunciado ou divulgado pois alguns podem não entender a complexidade de ser um pensador ... aquele que tem o gracioso poder de pensar e se calar sem que seus pensamentos cheguem aos ouvidos de outros.'' 

by: Pedro I.

Talento não é Sabedoria

Deixa-me dizer-te francamente o juízo que eu formo do homem transcendente em génio, em estro, em fogo, em originalidade, finalmente em tudo isso que se inveja, que se ama, e que se detesta, muitas vezes. O homem de talento é sempre um mau homem. Alguns conheço eu que o mundo proclama virtuosos e sábios. Deixá-los proclamar. O talento não é sabedoria. Sabedoria é o trabalho incessante do espírito sobra a ciência. O talento é a vibração convulsiva de espírito, a originalidade inventiva e rebelde à autoridade, a viagem extática pelas regiões incógnitas da ideia. Agostinho, Fénelon, Madame de Staël e Bentham são sabedorias. Lutero, Ninon de Lenclos, Voltaire e Byron são talentos.
Compara as vicissitudes dessas duas mulheres e os serviços prestados à humanidade por esses homens, e terás encontrado o antagonismo social em que lutam o talento com a sabedoria. Porque é mau o homem de talento ? Essa bela flor porque tem no seio um espinho envenenado ? Essa esplêndida taça de brilhantes e ouro porque é que contém o fel, que abrasa os lábios de quem a toca ? Aqui tens um tema para trabalhos superiores à cabeça de uma mulher, ainda mesmo reforçada por duas dúzias de cabeças académicas ! Lembra-me ouvir dizer a um doido que sofria por ter talento. Pedi-lhe as circunstâncias do seu martírio sublime, e respondeu-me o seguinte com a mais profunda convicção, e a mais tocante solenidade filosófica : os talentos são raros, e os estúpidos são muitos. Os estúpidos guerreiam barbaramente o talento : são os vândalos do mundo espiritual. O talento não tem partido nesta peleja desigual. Foge, dispara na retirada um tiroteio de sarcasmos pungentes, e, por fim, isola-se, segrega-se do contacto do mundo, e curte em silêncio aquele fel de vingança, que, mais cedo ou mais tarde, cospe na cara de algum inimigo, que encontra desviado do corpo do exército. Aí tem a razão por que o homem de talento é perigoso na sociedade. O ódio inspira-lhe a eloquência da traição.

Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco in 'Coisas que Só eu Sei' 

sábado, 20 de agosto de 2011

Agradeço todas as visitas...

Mas não...


Ela poderia ter passado o resto da vida exatamente ali, esparramada na autopiedade. Lustrando as lembranças difíceis com zelo de quem guarda relíquias. Fazendo contas para medir o amor que ofereceu e o amor recebido. Atualizando todo dia a estatística das perdas e insucessos vividos. Esmiuçando, incansável, a história de cada traição sofrida. Envenenando-se com a substância tóxica da culpa. Morrendo de fome, com recursos para banquete, o medo desmatando lentamente territórios arborizados da alma, secando rios de delícias, amordaçando passarinhos, desmentindo flores.

Ela poderia ter passado o resto da vida exatamente ali, esparramada na autopiedade. Onde não corria vento, onde não batia sol, onde toda muda de alegria morria desidratada, onde só brotava pé de mágoa. Poderia, não porque ali fosse lugar aprazível, mas porque ali lhe parecia seguro. As insatisfações organizadamente acomodadas, os culpados escolhidos, as desculpas em dia, a escuta blindada para não ver o quanto o cansaço de toda aquela insipidez embotava o viço dos passos. Desmanchava estrelas. Esgarçava devagarinho o frágil tecido da paz. Ali, era mais fácil não arriscar movimento. Ali, era mais fácil esquecer que podia fazer escolhas. Ali, era mais fácil esquecer-se.

Mas a alma, sábia e habilidosa bordadeira de pretextos, quando encontrou brecha, arrumou um jeito de alumiar aquele lugar. Foi então que ela conseguiu enxergar exatamente onde estava com nitidez reveladora e também desconcertante. Fazia tempo, desconhecia o paradeiro do brilho dos seus olhos sem ter feito nenhum movimento para trazê-lo de volta. Estava profundamente infeliz e agiu durante temporadas como se isso não lhe dissesse respeito. Não fazia ideia da vez mais recente em que experimentara satisfação autêntica e até aquele momento sequer havia notado. Deu tanto poder aos outros para interferirem na sua alegria que esvaziara o próprio até a exaustão. Afastou-se tanto do coração e do seu desejo que encolhera-se, inerte, diante de cada golpe sofrido sem contar com a própria proteção. Esforçou-se de tal forma para se tornar interessante para o outro, que perdera o interesse por si mesma. Os sucessivos desapontamentos tentaram lhe dizer que não era merecedora de coisas que faziam toda diferença, e ela acreditou.

Na clareza que liberta, ao lembrar ser capaz de fazer escolhas pela própria vida, escolheu sair daquele lugar, passo a passo, gentileza a gentileza, no tempo que fosse necessário. Agora, poderia contar de novo consigo mesma. Renovar, gesto a gesto, o compromisso com o próprio coração. Sentir-se responsável pela própria felicidade com a confiança de quem recorda o que realmente mais lhe importa. E com uma vontade toda nova de, primeiro, desfrutar a dádiva da própria lindeza e do próprio amor.

Ana Jácomo

Só de Sacanagem



‎"Meu coração está aos pulos! 
Quantas vezes minha esperança será posta a prova? 
Por quantas provas terá ela que passar?
Tudo isso que está aí no ar: malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro. Do meu dinheiro, do nosso dinheiro que reservamos duramente pra educar os meninos mais pobres que nós, pra cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais. Esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais. Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta a prova? Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais? É certo que tempos difíceis existem pra aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz. Meu coração tá no escuro. A luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e todos os justos que os precederam. 'Não roubarás!', 'Devolva o lápis do coleguinha', 'Esse apontador não é seu, minha filha'. Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar! Até habeas corpus preventiva, coisa da qual nunca tinha visto falar, sobre o qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará! Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear! Mais honesta ainda eu vou ficar! Só de sacanagem!
Dirão: 'Deixe de ser boba! Desde Cabral que aqui todo mundo rouba!
E eu vou dizer: 'Não importa! Será esse o meu carnaval! Vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos.'
Vamo pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo, a gente consegue ser livre, ético e o escambal.
Dirão: 'É inútil! Todo mundo aqui é corrupto desde o primeiro homem que veio de Portugal!'
E eu direi: 'Não admito! Minha esperança é imortal, ouviram? Imortal!'
Sei que não dá pra mudar o começo, mas, se a gente quizer, vai dar pra mudar o final!"

Elisa Lucinda 12 de agosto de 2005.


Achei aqui

Pinte a sua, com todas as cores possíveis...



“A vida é uma tela com pequenos rabiscos, onde criamos o céu ou o inferno, de acordo com as tintas que usamos…”

Vai, deixa-te de tristezas e deixa o sonho levantar-te, acredita que é possível ainda hoje dar uma volta à vida, acredita que tudo foi apenas um engano,mantém a rota do teu barco da vida,não desistas novamente, as pedras são apenas restos que a chuva trouxe…

Amar, viver, sonhar, acreditar, lutar e até o chorar, são fases que compõem o grande quadro chamado vida, onde a tela é a tua história, as tintas são as pessoas que passam por ela mas, o pintor, o responsável pela obra és sempre tu.

Haja o que houver, aconteça o que acontecer, o pincel que mistura as cores, que dá forma ao que vai surgir na tela, que cria e apaga situações e imagens, ainda está na tua mão.

És tu quem pode criar agora, uma estrada florida, ou o caminho escuro das incertezas e dúvidas.

Já que tu és o autor, o pintor dessa tela chamada vida, começa por pintar um sorriso, que é o sinal que representa a esperança, a renovação, o símbolo dos que não desistem nunca de serem Felizes, e ser Feliz exige criatividade, esforço e dedicação.

Se tudo deu errado até aqui, passa tinta branca em toda a tela e recomeça, hoje é o dia perfeito para uma nova pintura…

Paulo R. Gaefke

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

tenho premonição de um segundo





"Embora não te tenhas inclinado sobre mim
suplicando-me que te amasse,
embora não tenhas imortalizado
o meu desejo em versos dourados,
secretamente lanço encantamentos para o futuro , 
sempre que as noites são de um azul profundo , e tenho premonição de um segundo encontro, um inevitável segundo encontro contigo ."

Anna Akhmátova

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Não Faz Sentido! - Mídias Sociais

Por Onde Andarás?

demoras e ausências



É fácil falar de espera
quando não é você que está do outro lado da linha.

Enquanto não é sua caixa de correios que lota de cartas
e não é sua casa que tem paredes de sobra
É simples não se preocupar com o tempo

quando não é o seu corpo que acumula ausências
enquanto não é sua boca que guarda beijos para depois
e não é a sua pele que se perfuma para ninguém
Seria lindo e ótimo poder observar e aconselhar que é importante esperar, aguardar
mas agora não dá mais,
estou com vontade de morrer...

de encontro e felicidade.
Cáh Morandi


A Noite É Muito Escura

É noite. A noite é muito escura.
Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que não sei quem é,
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.

Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só veio aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir?

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

O Canto Noturno de Nietzsche


É noite: falam mais alto, agora, todas as fontes borbulhantes.
E também a minha alma é uma fonte borbulhante.
É noite: somente agora despertam todos os cantos dos que amam.
E também a minha alma é o canto de alguém que ama.
Há qualquer coisa insaciada, insaciável, em mim; e quer erguer a voz.
Um anseio de amor, há em mim, que fala a própria linguagem do amor.
Eu sou luz; ah, fosse eu noite!
Mas esta é a minha solidão: que estou circundado de luz.
Ah, fosse eu escuro e noturno!
Como desejaria sugar os seios da luz!
E até vós desejaria abençoar, pequenos astros cintilantes e vagalumes, lá no alto! - e ser feliz com as vossas dádivas de luz.
Mas eu vivo na minha própria luz, sorvo de volta em mim as chamas que de mim rompem.
Não conheço a felicidade dos que recebem; e muitas vezes sonhei que roubar deve ser ventura ainda maior que receber.
É esta a minha pobreza: que minha mão nunca pára de dar presentes; é esta a minha inveja: qie vejo olhos à espera e as noites iluminadas do anseio.
Ó desventura de todos os dadivosos! Ó obscurecimento do meu sol! Ó desejo de desejar! Ó fome insaciável na saciedade!
Eles recebem os meus presentes; mas tocarei ainda a sua alma?
Há um abismo entre dar e receber; e também o menor dos abismos precisa ser transposto.
Nasce uma fome da minha beleza: desejaria magoar aqueles que ilumino; desejaria roubar aqueles que presenteio: assim tenho fome de maldade.
Retirar a mão, quando já a outra mão se lhe estende; hesitar como a cachoeira, que ainda hesita ao precipitar-se: assim tenho fome de maldade.
Tal vingança medita minha plenitude, tal perfídia brota da minha solidão.
Minha ventura em dar extinguiu-se ao dar, minha virtude cansou-se de si mesma pela sua superabundância!
Quem sempre dá, corre o perigo de perder o pudor; quem sempre reparte, cria calos em suas mãos e coração, de tanto repartir.
Meus olhos não choram mais ante o pudor dos pedintes; demasiado endureceu minha mão, par sentir o tremor das mãos satisfeitas.
Para onde foram as lágrimas dos meus olhos e o frouxel do meu coração? Ó solidão de todos os dadivosos! Ó silêncio de todos os que espalham luz!
Muitos sóis gravitam nos espaços vazios: falam, com sua luz, a tudo o que é escuro - como silenciam.
Oh, essa é a hostilidade da luz por tudo o que é luminoso: implacável percorre ela sua órbita.
Injusto, no fundo do seu coração, com tudo o que é luminoso; frio para com os outros sóis - assim segue, cada sol, o seu próprio caminho.
Como uma tempestade, percorrem os sóis, velozmente, suas órbitas: esse é o seu curso.
Seguem, inexoráveis, a sua vontade: é essa a sua frieza.
Ó seres escuros, noturnos, somente vós criais o calor, haurindo-se dos corpos luminosos!
Somente vós bebeis o leite e o bálsamo dos seios de luz!
Ah, há gelo em volta de mim; queima-se minha mão tocando em gelo!
Ah, há uma sede, em mim, que almeja pela vossa sede!
É noite: ai de mim, que tenho de ser luz!
E sede do que é noturno. E solidão!
É noite: como uma nascente, rompe em mim, agora, o meu desejo - e pede-me que fale.
É noite: falam mais alto, agora, todas as fontes borbulhantes.
E também a minha alma é uma fonte borbulhante.
É noite: somente agora despertam todos os cantos dos que amam.
E também a minha alma é o canto de alguém que ama.
- Assim falava Zaratustra.


Assim falava Zaratustra é um dos textos mais polêmicos de Nietzsche. Zaratustra, o sem-Deus, o porta-voz da vida, o porta-voz do sofrimento, o porta-voz do nosso círculo, entoa este Canto Noturno, que apesar de não estar em versos, é citado pelo filósofo como exemplo de ditirambo no livro Ecce Homo, de 1888. 

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

E falando no Advogado do Diabo

Um dos filmes mais inteligentes que assisti foi "O Advogado do Diabo" (The Devil´s Advocate, 1997). Principalmente pelo roteiro. Os diálogos são de uma precisão cirúrgica. E, quando estão na voz de John Milton, o Belzebu, vivido por Al Pacino, são de um sarcasmo diabólico.
Já é uma ironia ácida colocar o demônio na pele de um advogado, "chairman" de um escritório jurídico, cheio de diabinhos travestidos de juristas. Exatamente aqueles que devem defender a verdade, a lei e, principalmente, a justiça.
Mas são as falas de Milton/Pacino que fazem deste filme um primor, a começar daquela, sempre repetida em vários momentos: "Vanity! Definitely my favorite sin." É pela vaidade, principalmente, que o diabo consegue seduzir suas almas. O homem renuncia a tudo - inclusive ao amor - para satisfazer sua necessidade de ser admirado. Nada é mais importante do que poder e prestígio perante homens e mulheres. Milton chega a oferecer a Kevin Lomax que se afaste de um caso importante, para dedicar-se mais à mulher (Charlize Theron, mais linda e competente do que nunca) que está seriamente doente. Ele recusa dizendo: "Sabe o que me assusta? Eu desisto do caso, ela melhora...e eu passo a odiá-la por isso."
O diálogo final entre Milton e Lomax, seu filho, é quase um monólogo onde Al Pacino arrasa, como sempre. Tem trechos memoráveis, como este:

"Let me give you a little inside information about God. God likes to watch. He's a prankster. Think about it. He gives man instincts. He gives you this extraordinary gift, and then what does He do, I swear for His own amusement, his own private, cosmic gag reel, He sets the rules in opposition. It's the goof of all time. Look but don't touch. Touch, but don't taste. Taste, don't swallow. Ahaha. And while you're jumpin' from one foot to the next, what is he doing? He's laughin' His sick, fuckin' ass off! He's a tight-ass! He's a SADIST! He's an absentee landlord! Worship that? NEVER!"

Numa tradução livre, não literal e resumida:

"Vou lhe dar uma pequena informação de bastidores sobre Deus. 

Deus gosta de assistir. É um gozador. Pense nisso. 
Ele dá instintos ao homem. Dá esse dom extraordinário e então o que Ele faz, juro, para seu próprio divertimento? Estabelece as regras em sentido contrário. É a 'pegadinha' do século. 
Olhe, mas não ponha a mão! Toque, mas não experimente! Prove, mas não engula! 
E, enquanto você fica pulando de um pé para o outro, o que ele faz? 
Fica rindo! Fica disfarçando, com se não tivesse nada a ver com isso. 
É um sádico! Venerar isso? 
NUNCA!"

Vamos e venhamos! Sem querer ser o advogado do diabo (não dá pra concordar com a sua falta de ética, nem com seus métodos de aliciamento, nem com seus objetivos escusos, etc.), mas não é que seus argumentos têm alguma lógica... Nossa luta para sermos virtuosos é uma eterna guerra contra nós mesmos. Engula, engula, engula e tampe bem tampado.

Encontrei: aqui

Dialogo tão bom quanto, só vi em O Advogado do Diabo


Gente vale a pena ler até o final.

Até que a morte...

De vez em quando o diabo me aparece e temos longas conversas.
Em nada se parece com o que dizem dele: rabo, chifres, patas de bode e cheiro de enxofre. Cavalheiro de voz mansa e racional, bem vestido, apreciador de desodorantes finos, me surpreende sempre pela lógica dos seus argumentos. Nada de futilidades. Só fala sobre o essencial, estilo que aprendeu com Deus, nos anos em que foi seu discípulo. Percebi que era ele quando notei que trazia na sua mão direita o martelo e, na esquerda, a bigorna. Pois esta é a sua missão: martelar as certezas, ferro contra ferro, para ver se sobrevivem ao teste.
Já se preparava para dar a primeira martelada quando o interrompi:
- Que é isto que você vai bater? Acho que vai se partir em mil pedaços…
A coisa que estava sobre a bigorna me parecia feita de louça, um bibelô delicado e frágil, e lamentei que o diabo fosse esmigalhá-la.
- Não tenho outra alternativa – ele me respondeu. – É parte de uma aposta que fiz com Deus. Este bibelô delicado é o casamento. E você pode estar certo: não resistirá ao ferro do meu martelo!
Fiquei indignado que ele estivesse maquinando coisa tão perversa e passei ao ataque.
- Não é à toa que os religiosos dizem que você é o anti-Deus. Deus junta. Você separa! A sua bigorna já destruiu muitos lares!
Ele não tinha pressa. Descansou o seu martelo e me falou com voz imperturbada:
- Já estou acostumado às calúnias. Mas não existe coisa alguma mais distante da verdade. Se há uma coisa que eu desejo é um casamento duradouro, até que a morte os separe. Se ponho o casamento na bigorna é justamente para provar que a receita do Criador não funciona. A minha é muito mais eficaz.
Como o meu silêncio indicasse minha disposição em ouvi-lo, ele continuou a falar:
- Todo mundo sabe que, no início, eu era a mão direita de Deus. Estávamos de acordo em tudo. Ele mandava, eu fazia. Foi por causa do casamento que nos separamos. Até então trabalhávamos juntos. Quando Deus disse que não era bom que o homem estivesse só, e melhor seria que ele tivesse uma mulher, eu concordei. Quando Deus disse que esta união teria de ser sem fim, até a morte, eu aplaudi. Mas aí apareceu o pomo da discórdia. Para colar o homem na mulher, Deus foi buscar uma bisnaguinha de amor. Protestei. Argumentei:
- Senhor! Amor é coisa muito fraca, de duração efêmera! Quem é colado com o amor logo se separa!
Citei o poeta: “Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure!” Amor é chama tênue, fogo de palha. Não pode ser imortal. No começo, aquele entusiasmo. Mas logo se apaga. Chama de vela, fraquinha, que se vai com qualquer ventinho… Amor é bibelô de louça. Todos os amantes sabem disso, mesmo os mais apaixonados. E não é por isso que sentem ciúmes? Ciúme é a consciência dolorosa de que o objeto amado não é posse: ele pode voar a qualquer momento. Por isto o amor é doloroso, está cheio de incertezas. Discreto tocar de dedos, suave encontro de olhares: coisa deliciosa, sem dúvida. E é por isso mesmo, por ser tão discreto, por ser tão suave, que o amor se recusa a segurar. Amar é ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar. Como construir uma relação duradoura com cola tão fraquinha? Por isto os casais se separam, por causa do amor, pela ilusão de um outro amor. Qualquer tolo sabe que o pássaro só fica se estiver na gaiola. O amor é cola fraca para produzir um casamento duradouro porque no amor vive o maior inimigo da estabilidade: a liberdade. É preciso que o pássaro aprenda que é inútil bater asas. Um casamento duradouro é aquele em que o homem e a mulher perderam as ilusões do amor.
- Foi aí que nos separamos – ele continuou.
- Não porque discordássemos que casamento deveria ser eterno. É isto que eu quero. Nos separamos porque não estávamos de acordo sobre o que é que junta um homem e uma mulher, eternamente. Deus é um romântico. Eu sou um realista.
- Qual foi então a sua proposta? Que cola deveria ser usada?- perguntei, perplexo.
- O ódio. – respondeu ele. – Enganam-se aqueles que dizem que o ódio separa. A verdade é que o ódio junta as pessoas. Como disse um jagunço do Guimarães Rosa, quem odeia o outro, leva o outro para a cama. Diferente do fogo da vela, o fogo do ódio é como um vulcão. Não se apaga nunca. Por fora pode parecer adormecido. No fundo, as chamas crepitam. A diferença entre os dois? O amor, por causa da liberdade, abre a mão e deixa o outro ir. No amor existe a permanente possibilidade de separação. Mas o ódio segura. Não tenha dúvidas. Os casamentos mais sólidos são baseados no ódio. E sabe por que o ódio não deixa ir? Porque ele não suporta a fantasia do outro, voando livre, feliz. O ódio constrói gaiolas, e ali dentro ficam os dois, moendo-se mutuamente numa máquina de moer carne que gira sem parar, cada um se nutrindo da infelicidade que pode causar no outro. As pessoas ficam juntas para se torturarem. Não menospreze o poder do sadismo. Ah! A suprema felicidade de fazer o outro infeliz!
Com estas palavras ele tomou do seu martelo e voltou ao seu trabalho:
- Tenho de provar que eu, e não Deus, sou quem sabe a receita do casamento que só a morte pode separar.
Eu me persignei três vezes e compreendi que o inferno está mais perto do que eu pensava.
(Retorno e Terno)
Rubem Alves


Encontrei: aqui

domingo, 7 de agosto de 2011

É como morrer

É mais fácil ficar sozinho.
Porque, e se você descobrir que precisa de amor,
E depois não o tiver?
E se você gostar e depender dele?
E se você modelar sua vida toda em volta dele…
Para então ele acabar?
Você consegue sobreviver a tamanha dor?
Perder amor é como perder um órgão,
É como morrer.
A única diferença é que a morte acaba.
Isto, pode durar para sempre…

Último episódio da 7ª temporada
Grey’s Anatomy

Jean Dieuzaide




© Foto de Jean Dieuzaide. O pintor Salvador Dali na água. Espanha, 1953.

Em 1953, o fotógrafo francês Jean Dieuzaide retratou o pintor surrealista Salvador Dali na água com o bigode enfeitado de flores, durante uma viagem a Espanha, uma foto que se tornou célebre.Jean Dieuzaide desenvolveu trabalhos em fotojornalismo, retratos e fotografias de arquitetura. Começou sua carreira durante a libertação de Toulouse. Em 1944 realizou os primeiros retratos oficiais do general Charles De Gaulle. A partir daí tornou-se especialista em retratar personalidades e anônimos. Dieuzaide morreu em 2003 em Toulouse, na França, aos 82 anos.

Abaixo mais alguns de seus trabalhos que chamaram minha atenção:








  Catalogue romane, site de
San-Clément de Tahull (XIe siècle) et la Maladetta, 1956.


La Gitane du Sacro Monte,Grenade, 1953

Auto retrato1979




Fonte: Images&Visions
Os apaixonados por fotografias, não podem deixar de conhecer esse site.

Lembranças...

sábado, 6 de agosto de 2011

Vapor


Foto clássica de mãe e filho logo após a explosão em Hiroshima.


Depois de um décimo de milésimo de segundo, o ar começou a absorver a explosão e a reagir. (…) Nesse momento, o clarão inicial já tinha percorrido um raio de trinta quilômetros. (…) Sob o hipocentro, o sangue no cérebro da senhora Aoyama já começava a vibrar, na iminência de virar vapor. O que ela experimentou foi uma das mortes mais rápidas de toda a história humana. Antes que algum nervo começasse a perceber a dor, ela e seus nervos deixaram de existir”.

Charles Pellegrino in O Último Trem de Hiroshima 

Agosto



“Para atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro- e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco….
Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu- sem o menor pudor, invente um.”
(Caio Fernando Abreu)

Porque hoje é sábado

Com o aniversariante do dia: João Rubinato






Mais conhecido como o querido Adoniran Barbosa

quinta-feira, 4 de agosto de 2011



Quero levar-te àquela ilha 
onde serás amado, 
onde serás aceito 
do jeito 
que és. 

Onde podes tirar a máscara 
e deixar esplender 
teu rosto. 
Onde minha ternura 
não se espantará 
com teu grão de loucura; 
onde minha paixão não diminuirá 
com tua parcela de medos; 
onde podes ser o que és, 
naturalmente, 
e mesmo assim 
farei de ti 
um rei. 

Lya Luft

Doce Medo


Tenho medo da dor de tua ausência

que me queima por dentro.

E da ternura eu tenho medo, dessa

beleza das noites secretas

quando chegas

sempre como se fosse a única vez.

Tenho medo de que um dia queiras

cessar esse rio de águas ardentes

onde mais do que os corpos

tocam-se as almas,

anjos desatinados luzindo no breu.

Lya Luft

Bem Que Se Quis


“Agora vem pra perto vem
vem depressa vem sem fim, dentro de mim 
que eu quero sentir o teu corpo pesando sobre o meu, 
vem meu amor vem pra mim, 
me abraça devagar, me beija e me faz esquecer.” 
Marisa Monte.

Bem que eu te quero :)

Amor?





Deu pra entender???
Não??!!
Pois é...
O amor a gente não entende!!!

Se é pra falar de paixão...

Eu deixo nas mãos dela, ou melhor na boca dela, 
Nada melhor que ouvir sobre paixão através da voz da deusa marrom.
Ela canta a paixão como ninguém!

Você me vira a cabeça
Me tira do sério
Destrói os planos
Que um dia eu fiz pra mim
Me faz pensar
Porque que a vida é assim...


Sou dôce, dengosa, polida
Fiel como um cão
Sou capaz de te dar
Minha vida...
Mas olha
Não pise na bola
Se pular a cêrca
Eu detono
Comigo não rola...


De amor eu não morro
O que eu posso
É chorar de saudade
Mas depois
Vou tentar refazer
Minha felicidade...


Faz uma loucura por mim
Sai gritando por ai bebendo e chora
Toma um porre picha um muro que me adora
Faz uma loucura por mim
Fica ate de madrugada perde a hora
Sai comigo pra gandaia noite afora


"E se o coração resolve me trair, me trair logo agora, não dá pra fugir...
não toque em mim, eu conheço esse jogo, eu já sei que se a gente se tocar, é fogo!"

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Nunca chegaremos ao final dessa busca, ela não pode ter fim, o fim da busca, significaria o "nosso fim"...


"Esta manhã, antes do alvorecer, subi numa colina para admirar o céu povoado,
E disse à minha alma: Quando abarcarmos esses mundos e o conhecimento e o prazer que encerram, estaremos finalmente fartos e satisfeitos?
E minha alma disse: Não, uma vez alcançados esses mundos prosseguiremos no caminho."



Uma gota d'água no oceano do amor 

"Um ato de bondade, mesmo que seja pequeno, 

nunca é em vão."

Madre Tereza

Tratado do Lobo da Estepe

Só para loucos






A esse propósito há que acrescentar algo. Muita gente existe que se assemelha a Harry; especialmente muitos artistas pertencem a essa classe de homens. Todas essas pessoas têm duas almas, dois seres em seu interior; há neles uma parte divina e uma satânica, há sangue materno e paterno, há capacidade para a ventura e para a desgraça, tão contrapostas e hostis como eram o lobo e o homem dentro de Harry. E esses homens, para os quais a vida não oferece repouso, experimentam às vezes, em seus raros momentos de felicidade, tanta força e tão indízivel beleza, a espuma do instante de ventura emerge às vezes tão alta e deslumbradora sobre o mar da dor, que sua luz, espargindo radiância, vai atingir a outros com seu encantamento. A isso se devem, a essa preciosa e momentânea espuma sobre o mar do sofrimento, todas aquelas obras artísticas em que o homem solitário e sofredor se eleva por uma hora tão alto sobre o seu próprio destino, que sua felicidade brilha como uma estrela, e parece a todos os que a vêem como algo eterno e como se fosse seu próprio sonho de ventura. Todas essas pessoas, sejam quais forem seus atos e obras, não têm propriamente uma vida, ou seja, sua vida carece de essência e de forma, não são heróis, nem artistas, nem pensadores da maneira como os demais são juízes, doutores, sapateiros ou mestres; sua existência é um movimento de fluxo e refluxo, está infeliz e dolorosamente partida e é sinistra e insensata, se não tivermos propensos a ver um sentido precisamente naqueles raros acontecimentos, ações, pensamentos e obras que brilham às vezes sobre o caos de semelhante vida. Entre os homens dessa espécie surgiu o perigoso e terrível pensamento de que, talvez, toda a vida do homem não passa de um espantoso erro, de um aborto brutal da mãe primeva, um cruel e selvagem intento frustrado da Natureza. Mas entre eles surgiu também a idéia de que o homem talvez não seja apenas um animal dotado de razão, mas o filho de Deus destinado à imortalidade.
(Hermann Hesse) 

Como seremos amanhã?

Por Lya Luft




"Estar aberto às novidades é estar vivo. Fechar-se a elas é morrer estando vivo. 

Um certo equilíbrio entre as duas atitudes ajuda a nem ser antiquado demais nem ser super avançadinho, correndo o perigo de confusões ou ridículo.
Sempre me fascinaram as mudanças - às vezes avanço, às vezes retorno a caverna. Mas hoje tudo "anda" incrivelmente rápido, atingindo nossos usos e costumes.Nossa visão do mundo se transforma! Nos usos e costumes a coisa é séria e nos afeta a todos: crianças muito precocemente sexualizadas pela moda, pela televisão, muitas vezes por mães alienadas. Se antes namorar era difícil, o primeiro batom rosa claro aos 15 anos, e não havia pílula anticoncepcional, hoje talvez amar ande descomplicado demais. O singular é que, com tanta informação disponível na Internet, e pseudoaulas de vida sexual em algumas escolas, tantas meninas ainda engravidem ou os meninos, peguem doenças venéreas. Casamentos (isto é, uniões ditas estáveis, morar juntos) estão sendo atropelados pela incapacidade de fortalecer laços, construir juntos com alguma paciência.Talvez a gente esteja num casa-separa muito rápido, frequentemente deixando filhinhos, que nem pediram para nascer, e certamente não queriam se separar de nada nem de ninguém. São simplesmente levados de um lado para o outro.Na educação cansei de falar. Cada dia uma nova notícia, não se reprova mais ninguém e os alunos entram na universidade sem saber escrever, coordenar pensamento, ler e entender.Não todos. Não sempre, mas cada vez com mais frequência.
 Na saúde, acho que melhorou. Sou de uma infância sem antibióticos. A gente sobrevivia sob os cuidados de mãe, pai, avó, médico de familia, aquele que atendia do parto à cirurgia mais complexa para aqueles dias. 

Dieta, que hoje se tornou obsessão, era impensável, sobretudo para crianças, e eu pré adolescente gordinha, não podia nem falar em "regime" que minha mãe arrancava os cabelos e o médico sacudia a cabeça: "nem pensar".

Em breve estaremos menos doentes: células tronco e chips vão nos concertar de imediato, ou evitar os males.Teremos de descobrir o que fazer com tanto tempo de vida a mais que nos será concedido...
Nada de aposentadoria precoce, chinelo e pijama ( isso ainda se usa?).
 Mas, aprender sempre. Interrogar o mundo, curtir a natureza, saborear a arte viajar para Marte, e outras rimas exóticas.
Passear, criar, divertir-se, viajar! Quem sabe nos mataremos menos, se as drogas forem controladas e a miséria extinta. Não creio em igualdade, mas dignidade para todos. Talvez haja menos guerras, porque de alguma forma seremos menos violentos.
Leremos unicamente livros eletrônicos ou algo ainda mais moderno. As vastas bibliotecas de papel serão museus, guardando o cheiro da minha infância, quando  - se eu aborrecia minha mãe com mil perguntas - meu pai me sentava em uma dessas poltronas de couro me botava no colo uma dessas enciclopédias com figuras de flores, frutas, bichos, protegida por papel de seda amarelado. Inesquecível e delicioso sobretudo quando chovia..
As crianças terão outras memórias, outras brincadeiras, outras alegrias; os adultos, novas sensações e possibilidades.
Mas as emoções humanas, estas eu penso que vão demorar a mudar .
Todos vão continuar querendo mais ou menos o mesmo: afeto, presença, sentido para a vida, alegria.
Desta, por mais modernos, avançados , biônicos, quânticos, incríveis, não podemos esquecer...
Ou não valerá a pena nem um só ano a mais, saúde a mais, brinquedinhos a mais.
Seremos uns robôs cinzentos e sem graça !"
Por mais avançados que sejamos , não podemos nos livrar das emoções humanas !  

Revista Veja 2 de março de 2011

Para quem não sabe para onde vai , qualquer caminho serve."



                     Alice , perdida na floresta , vira-se para o gato invisível e pergunta : 
"Você pode me ajudar ? " 
Ele responde : "Claro" . 
Ela fala : "Para onde vai esta estrada ?" 
O gato diz : "Para onde você quer ir ?" 
Alice responde : "Não sei . Estou perdida." 
Então o gato conclui : 
"Para quem não sabe para onde vai , qualquer caminho serve."