segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Amor nos tempos do cólera





Filme da obra homônima de Gabriel Garcia Márquez. O  produtor Scott Steindorff levou três anos para convencer o escritor a vender os direitos de adaptação de seu livro para o cinema.

Como em toda obra de Gabriel Garcia Márquez, nessa encontraremos a profundidade com a qual trata as personagens que constrói. [...]

O filme nos mostrará uma bela e comovente história de amor e devoção que atravessa toda uma vida de espera. Florentino Ariza (Javier Bardem) e Fermina Daza (Giovanna Mezzogiorno) se apaixonam um pelo outro, quando ainda muito jovens. Um amor que contém uma delicadeza de intenções desde o seu aparecimento, costurado pela poesia.

[...] A cena onde Florentino chora e adoece de amor no colo de sua protetora mãe, Tránsito Ariza(Fernanda Montenegro), é comoventemente bela. Esse filme é um convite para que pensemos no que chamamos de amor e no quanto o poeta Fernando Pessoa esteve certo quando disse que:


“Todas as cartas de amor são
  Ridículas.
  Não seriam cartas de amor se não fossem
  Ridículas”.

Florentino nos traz o ridículo do amor em toda sua altivez, a convicção da obsessão do amor, não desistindo da espera, do seu sonho de tomar Fermina novamente em seus braços. Não foge da dor inominável da perda, enfrenta-a como um navegante desorientado em mar em tempestade.

[...] Florentino poderia ser visto apenas como um obsessivo compulsivo frente ao afeto, com certeza caberia essa leitura, mas nos parece que ela não daria conta de toda beleza e força de vida que há nesse personagem que irá para muito além da repetição, do aprisionamento compulsivo.

Essa dor o fará criar, viver aventuras, viagens, descobertas, em sua busca incessante de manter vivo dentro de si, o amor por Fermina. Em nome dessa dor e a partir dela, conquistará toda uma vida plena em fatos e acontecimentos.

Gabriel García Márquez teria dito que este é o livro que ele “escreveu com as entranhas”. E o filme não deixa de nos mostrar a profundidade contida nessa afirmação. Embora em alguns momentos nos arranque sorrisos ou ironias, nos faz pensar em amores perdidos e achados ao longo das nossas vidas. A fidelidade de Florentino ao amor que tem, que vai para muito mais além do que seja a Fermina, é uma fidelidade a uma escolha que fez e que passa a ser constituinte desse ser no mundo. Por e através desse amor ele construirá um homem com crenças e buscas, muito bem plantadas. Ensina, por outro lado, que pode investir parte do afeto em outras relações, mas mantendo intocada a relação de objeto que escolhe como a organizadora pulsional de seu aparelho psíquico.

O que teria esse filme a nos ensinar hoje, na modernidade das relações, permeadas por hipocrisia, afastamento, desamparo, isolamento narcisista e desencontros?
Ao final do filme com a morte de Juvenal Urbino, após o enfrentamento dos ditames sociais que os manteria ainda separados, pela insistência persistente do nosso impagável personagem Florentino, encontrarão finalmente um os braços do outro, em um amor juvenil que atravessou décadas para finalmente se realizar acima das ordens e regras da sociedade da época. Belo encontro!

Mais do que de amor, esse filme nos fala de ideais, de busca movida pela paixão, fala da construção da vida em seus atos, que só terão sentido, só existirão, a partir da coragem de enfrentar perdas e danos e acreditar profundamente na força do desejo que nos faz ser quem somos, aquele que nos constitui desde antes de usarmos a palavra, a representação, àquilo que nos remeterá ao místico das pulsões.
Por Eduardo J. S. Honorato e Denise Deschamps





"Na espera havia perdido a força das coxas, a dureza dos seios, o hábito da ternura, mas conservava intacta a loucura do coração."



"Depois de um longo tempo, Florentino Ariza olhou Fermina Daza ao fulgor do rio, viu-a espectral, o perfil de estátua suavizado por um tênue resplendor azul, e viu que chorava em silêncio.
Mas, em vez de consolá-la, ou esperar que esgotasse suas lágrimas, como queria ela, deixou-se invadir pelo pânico.
-Você quer ficar só?
-Se quisesse não diria a você que entrasse. - disse ela.

Então ele estendeu os dedos gelados na escuridão, buscou tateante a outra mão na escuridão, e a encontrou à espera.
Ambos foram bastante lúcidos para perceber , num mesmo instante fugaz, que nenhuma das duas era a mão que tinham imaginado antes de se tocar, e sim duas mãos de ossos velhos."


Gabriel Garcia Márquez - " O amor nos tempos do cólera


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