quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Fragmentos de um Evangelho Apócrifo





5 Afortunados os que sabem que o sofrimento não é uma coroa de glória.

6 Não basta ser o último para ser alguma vez o primeiro.


7 Feliz o que não insiste em ter razão, pois ninguém a tem ou todos a têm.

8 Feliz o que perdoa os outros e o que perdoa a si mesmo.

9 Bem-aventurados os mansos, porque não condescendem à discórdia.

10 Bem-aventurados os que têm fome de justiça, porque sabem que a nossa sorte, adversa ou piedosa, é obra do acaso, que é inescrutável.

11 Bem-aventurados os misericordiosos, porque sua felicidade está no exercício da misericórdia e não na esperança de um prêmio.
12 Bem-aventurados os de coração limpo, porque vêem Deus.

13 Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque lhes importa mais a justiça do que o seu destino humano.

14 Ninguém é o sal da terra; ninguém, em algum momento da sua vida, não o é.


15 Que a luz de uma lâmpada se acenda, mesmo que nenhum homem a veja. Deus a verá.

16 Não há mandamento que não possa ser infringido, e também os que digo e os que os profetas disseram.

18 Os atos dos homens não merecem nem o fogo nem os céus.

19 Não odeies o teu inimigo, pois se o fazes, és de algum modo seu escravo. Teu ódio nunca será melhor que a tua paz.


20 Se a tua mão direita te ofender, perdoa-a; és teu corpo e és tua alma e é árduo, senão impossível, fixar a fronteira que os divide...

24 Não exageres o culto da verdade; não há homem que ao cabo de um dia não tenha mentido com razão muitas vezes.

25 Não jures, pois todo juramento é uma ênfase.

26 Resiste ao mal, porém sem espanto e sem ira. A quem te ferir na face direita, podes voltar a outra, desde que não te mova o temor.

27 Não falo de vinganças nem de perdões; o esquecimento é a única vingança e o único perdão.

28 Fazer o bem ao teu inimigo pode ser obra de justiça e não é árduo; amá-lo, tarefa de anjos e não de homens.

29 Fazer o bem ao teu inimigo é a melhor forma de satisfazer a tua vaidade.

30 Não acumules ouro na terra, porque o ouro é pai do ócio, e este, da tristeza e do tédio.

31 Pensa que os outros são justos ou sê-lo-ão, e se não for assim, não é teu o erro.

32 Deus é mais generoso que os homens e os medirá com outra medida.

33 Dá o que é santo aos cães, joga tuas pérolas aos porcos; o importante é dar.

34 Procura pelo prazer de procurar, não pelo de encontrar...

39 A porta é que escolhe, não o homem.

40 Não julgues a árvore por seus frutos, nem o homem por suas obras; podem ser piores ou melhores.

47 Feliz o pobre sem amargura ou o rico sem soberba

50 Felizes os amados, os que amam e os que podem prescindir do amor.

51 Felizes os felizes.

Jorge Luis Borges  "Elogio da Sombra"

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