quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Qual a sensação do "não-amar"?


Dizem por aí, que não tem coisa pior pra um escritor, do que a felicidade. Porque poesia pra pegar lá no fundo, tem que vir sofrida, derrotada, doída. Ironicamente, a dor que estraçalha a vida real, é combustível essencial pra aquele que escreve. Porque escrever é exorcizar seus demônios – a escrita agarra tudo aquilo que machuca dentro, trás pra fora, expõe a ferida aberta pro mundo. E a dor, é a principal responsável pelos textos que pegam na alma.
Hoje me falta o combustível da dor. Queria escrever um daqueles textos sofridos, que fazem o outro querer atravessar a tela pra te dar um abraço e dizer que vai ficar tudo bem. Mas a dor de amor, há algum tempo, não dá as caras. Ela já passou por essa estrada, deixou cicatrizes, motivou palavras – e se foi. E hoje, eu nem faço mais ideia de como ela seja. Por mais que remexa lá no fundo pra encontrar algum vestígio de dor que desmanche em poesia, nada encontro. 
E hoje só consigo mesmo perguntar a velha questão 
"What’s not to love?". Qual a sensação do "não-amar"? 
Porque hoje, metade de mim é amor e a outra metade também.
Jaque Barbosa.

Pode ser a gota d’água



Já lhe dei meu corpo, minha alegria
Já estanquei meu sangue quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta pro desfecho da festa
Por favor,
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d’água
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d’água  
“Gota d’Água” Chico Buarque…

Aí se contém toda a verdade suportável:



[...]Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres,
com a paz e o sorriso de quem se reconhece
e viajou à roda do mundo infatigável,
porque mordeu a alma até aos ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.
(José Saramago)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Melhorar o mundo melhorando a si próprio

[...] Desarmar deve ser o lema, não apenas um desarmamento da sociedade civil, dos membros particulares da sociedade, mas do Estado, uma tomada de posição pela paz interna e pela concórdia externa. Coloquemos claramente que não somos ameaça a ninguém, mas nem por isso aceitaremos ou acataremos qualquer ameaça, pois ainda que não matemos pela liberdade, morreremos por ela, se preciso for. Desarmem principalmente o espírito dos preconceitos, das receitas prontas, do exemplo do passado, ou dos outros; é preciso inventar algo próprio. O grande tirano a ser morto, na maior parte dos casos, está dentro da própria pessoa. A grande mudança não está apenas na ação, mas na recepção da ação alheia e própria. Não basta agir bem, é preciso não querer punir quem age mal, pois o justo deve transcender a arcaica vingança primitiva. O que melhor fiz e faço pelo mundo é me fazendo como sou, uma pessoa que discute a vida aonde for e com quem esteja, não buscando seus enigmas, todos eles falsos ou tolos, quando não os dois simultaneamente, mas revelando a tolice diária das intermináveis filas que as pessoas domesticadas esperam pacientemente (ou não) a sua vez de serem atendidas. E se querem aumentar a arrecadação estatal, descriminalizem as drogas, o jogo, a prostituição, o aborto; além de aumentar a arrecadação com os impostos sobre tais produtos e serviços, não se gasta com a sua proibição e perseguição inútil. Enfim, se querem dinheiro para pagar as dívidas, arrecadem de quem só dá custo social, até o momento, e economize com o corte do custo com a proibição dessas atividades hoje clandestinas. Se não são as virtudes que podem nos salvar, os vícios pelo menos podem amenizar as dores dessa vida cujos ganhos não deveriam ser apenas financeiros. Não foram as proibições que amenizaram os costumes, ou eliminaram os vícios, mas a regulamentação daquilo que pertence a privacidade das pessoas que torna possível o convívio, e a tolerância com os vícios que não devem ser vistos como crimes ou pecados.
Outro Alguém Sem Sobrenome


Para ler esse texto na integra clique aqui 


Falar é uma necessidade, escutar é uma arte.
Johann Goethe

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Queria poder declarar ao mundo este amor


Queria ter coragem para falar deste segredo. Queria poder declarar ao mundo este amor. Não me falta vontade. Não me falta desejo. Você é minha vontade. Meu maior desejo.Queria poder gritar esta loucura saudável que é estar em teus braços perdido pelos teus beijos. Sentindo-me louco de desejo. Queria recitar versos. Cantar aos quatros ventos as palavras que brotam. Você é a inspiração. Minha motivação. Queria falar dos sonhos. Dizer os meus secretos desejos que é largar tudo para viver com você. Este inconfesso desejo. 
Carlos Drummond de Andrade

Antíteses




Nasce o Sol, e não dura mais que um dia; Depois da Luz se segue à noite escura; Em tristes sombras morre a formosura, Em contínuas tristezas e alegrias. 
— Inconstância das coisas do mundo!


Viverei para sempre ou morrerei tentando 


Onde queres prazer sou o que dói (...) E onde queres tortura, mansidão (...) E onde queres bandido sou herói. 


Residem juntamente no teu peito/um demônio que ruge e um deus que chora 


Meus olhos andam cegos de te ver 


"Já estou cheio de me sentir vazio, meu corpo é quente e estou sentindo frio." 


"Uma menina me ensinou, quase tudo que eu sei, era quase escravidão, mas ela me tratava como um rei" 


"Eu vi a cara da morte, e ela estava viva". 


"Eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada" (Humberto Gessinger)


"Mas que seja infinito enquanto dure 


Do riso se fez o pranto. 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Cartas de amor "ridículas"


O Tempo, que envelhece as faces e os cabelos, envelhece também, mas mais depressa ainda, as afeições violentas. A maioria da gente, porque é estúpida, consegue não dar por isso, e julga que ainda ama porque contraiu o hábito de se sentir a amar. Se assim não fosse, não havia gente feliz no mundo. As criaturas superiores, porém, são privadas da possibilidade dessa ilusão, porque nem podem crer que o amor dure, nem, quando o sentem acabado, se enganam tomando por ele a estima, ou a gratidão, que ele deixou.
Estas coisas fazem sofrer, mas o sofrimento passa. Se a vida, que é tudo, passa por fim, como não hão de passar o amor e a dor, e todas as mais coisas, que não são mais que partes da vida?
Na sua carta é injusta para comigo, mas compreendo e desculpo;decerto a escreveu com irritação, talvez mesmo com mágoa, mas a maioria da gente - homens e mulheres - escreveria, no seu caso, num tom ainda mais acerbo, e em termos ainda mais injustos. Mas a Ophelinha tem um feitio ótimo, e mesmo a sua irritação não consegue ter maldade. quando casar, se não tiver a felicidade que merece, por certo que não será sua a culpa.
Quanto a mim...
O amor passou. ma conservo-lhe uma afeição inalterável, e não esquecerei nunca - nunca, creia -nem a sua figurinha engraçada e os seus modos de pequenina, nem a sua ternura, a usa dedicação, a sua índole amorável. Pode ser que me engane, e que estas qualidades, que lhe atribuo, fossem uma ilusão minha; mas nem creio que fossem, nem, a terem sido, seria desprimor para mim que que as atribuísse.
Não sei o que quer que lhe devolva - cartas ou que mais. Eu preferiria não lhe devolver nada, e conservar as suas cartinhas como memória viva de um passado morto, como todos os passados; como alguma coisa de comovedor numa vida, como a minha, em que o progresso nos anos é par do progresso na infelicidade e na desilusão.
Peço que não faça como a gente vulgar, que é sempre reles; que não me volte a cara quando passe por si, nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor. Fiquemos, um perante o outro, como dois conhecidos desde a infância, que se amaram um pouco quando meninos, e, embora na vida adulta sigam outras afeições e outros caminhos, conservam sempre, num escaninho da alma, a memória profunda do seu amor antigo e inútil.
Que isto de "outras afeições" e de "outros caminhos" é consigo, Ophelinha, e não comigo. O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ophelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais a obediência a Mestres que não permitem nem perdoam.
Não é necessário que compreenda isto. Basta que me conserve com carinho na sua lembrança, como eu, inalteravelmente, a conservarei na minha.
Fernando

Fernando Pessoa in Cartas para Ophélia Queiroz

Cartas de amor "ridículas"


[...] Pode preferir quem quiser: não tem obrigação - creio eu - de amar-me, nem, realmente necessidade (a não ser que queira divertir-se) de fingir que me ama.
Quem ama verdadeiramente não escreve cartas que parecem requerimentos de advogado. O amor não estuda tanto as cousas, nem trata os outros como réus que é preciso « entalar » .
Porque não é franca comigo? Que empenho tem em fazer sofrer quem não lhe fez mal - nem a si, nem a ninguém-, e quem tem por peso e dor bastante a própria vida isolada e triste, e não precisa de que lh'a venham acrescentar creando-lhe esperanças falsas, mostrando-lhe afeições fingidas e isto sem que se perceba com que interesse, mesmo de divertimento, ou com que proveito, mesmo de troça.
Reconheço que tudo isto é cômico, e que a parte mais cômica d'isto tudo sou eu.
Eu-proprio acharia graça, se não a amasse tanto, e se tivesse tempo para pensar em outra cousa que não fosse não fosse no sofrimento que tem prazer em causar-me sem que eu, a não ser por amá-la, o tenha merecido, e creio bem que amá-la não é razão bastante para o merecer. Enfim…
Fernando 

Fernando Pessoa in Cartas para Ophélia Queiroz

Pois é...



É isso, o amor é assim...infinito enquanto dura !
Essa realidade todos devíamos aprender como lição de vida, no cotidiano...sugue tudo que puder do amor, viva intensamente sem medo, um dia poderá acabar ou não..simples assim..
Não sou volúvel, a realidade é afiada como uma navalha !

Helena Ramos