terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Novamente o tempo



"Eu fiz um acordo com o tempo...
Nem ele me persegue, nem eu fujo dele...
Qualquer dia a gente se encontra e,
Dessa forma, vou vivendo
Intensamente cada momento..."
Mário Lago

É o que tenho tenho para te oferecer.



"Tudo é uma eterna repetição. O que já foi de novo será... 
Pelo menos essa é a sabedoria do Eclesiastes. Conta-se que durante a segunda guerra mundial, na divisa entre Suíça e Alemanha, estavam duas guarnições militares: a alemã, do lado da Alemanha e a suíça, do lado da Suíça. Os soldados nazistas resolveram dar um presente aos suíços. Enviaram-lhes uma caixa própria de presentes. Quando os guarda suíços a abriram estava cheia de cocô alemão... Os suíços resolveram retribuir o presente. Quando os alemães abriram a caixa lá estava um lindo queijo, enorme, amarelo, perfumado, e um bilhetinho: “Continuemos assim a nos presentear com aquilo que temos de melhor...” Pulo da fronteira entre Suíça e Alemanha para Araxá, onde viveu Dona Beja... Ela era odiada por todas as mulheres honestas do lugar. Estas, movidas pelo pecado verde, a inveja. enviaram-lhe um presente: uma caixa cheia de bosta de cavalo. Ela retribuiu: enviou flores a todas as mulheres que, segundo o seu conhecimento, eram as “presenteadoras”, com um bilhetinho: “Cada um presenteia com aquilo que tem de melhor...” Mudam os tempos e os lugares, mas a liturgia é a mesma".
Rubem Alves

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Dislexia você tem?


Esses dias achei esse slogan na internet, mas não entendi, pois não sabia o que era dislexia.
Dias atrás conversando com um amigo, o mesmo disse-me que era disléxico, então perguntei-lhe o que vinha a ser dislexia. Ele respondeu-me que era um problema de atenção (ou no caso dele falta dela), não conseguia se concentrar, não conseguia ficar muito tempo em lugar fechado ou em uma mesma tarefa e isso dificultava bastante, pois ele queria prestar concursos e fazer a prova para a OAB e nunca conseguia ficar dentro da sala o tempo suficiente para realizar uma prova com excelência.  Eu também tenho problema de concentração, passou um mosquito pronto, lá voa meu pensamento junto com ele, perco as coisas muito fácil e aí por diante. Assim resolvi pesquisar mais a respeito.
Depois de "muito estudo" :) cheguei ao diagnóstico; sou disléxica e meu amigo também.
E você?
De uma olhadinha nos sintomas abaixo depois acesse esse http://www.dislexia.com.br/ para maiores informações a respeito.
Brincadeiras a parte é um assunto muito interessante.

A Partir dos Sete Anos de Idade:

1 - pode ser extremamente lento ao fazer seus deveres:
2 - ao contrário, seus deveres podem ser feitos rapidamente e com muitos erros;
3 - copia com letra bonita, mas tem pobre compreensão do texto ou não lê o que escreve;
4 - a fluência em leitura é inadequada para a idade;
5 - inventa, acrescenta ou omite palavras ao ler e ao escrever;
6 - só faz leitura silenciosa;
7 - ao contrário, só entende o que lê, quando lê em voz alta para poder ouvir o som da palavra;
8 - sua letra pode ser mal grafada e, até, ininteligível; pode borrar ou ligar as palavras entre si;
9 - pode omitir, acrescentar, trocar ou inverter a ordem e direção de letras e sílabas;
10 - esquece aquilo que aprendera muito bem, em poucas horas, dias ou semanas;
11 - é mais fácil, ou só é capaz de bem transmitir o que sabe através de exames orais;
12 - ao contrário, pode ser mais fácil escrever o que sabe do que falar aquilo que sabe;
13 - tem grande imaginação e criatividade;
14 - desliga-se facilmente, entrando "no mundo da lua";
15 - tem dor de barriga na hora de ir para a escola e pode ter febre alta em dias de prova;
16 - porque se liga em tudo, não consegue concentrar a atenção em um só estímulo;
17 - baixa auto-imagem e auto-estima; não gosta de ir para a escola;
18 - esquiva-se de ler, especialmente em voz alta;

19 - perde-se facilmente no espaço e no tempo; sempre perde e esquece seus pertences;
20 - tem mudanças bruscas de humor;

21 - é impulsivo e interrompe os demais para falar;
22 - não consegue falar se outra pessoa estiver falando ao mesmo tempo em que ele fala;
23 - é muito tímido e desligado; sob pressão, pode falar o oposto do que desejaria;
24 - tem dificuldades visuais, embora um exame não revele problemas com seus olhos;
25 - embora alguns sejam atletas, outros mal conseguem chutar, jogar ou apanhar uma bola;
26 - confunde direita-esquerda, em cima-em baixo; na frente-atrás;
27 - é comum apresentar lateralidade cruzada; muitos são canhestros e outros ambidestros;
28 - dificuldade para ler as horas, para seqüências como dia, mês e estação do ano;
29 - dificuldade em aritmética básica e/ou em matemática mais avançada;
30 - depende do uso dos dedos para contar, de truques e objetos para calcular;
31 - sabe contar, mas tem dificuldades em contar objetos e lidar com dinheiro;
32 - é capaz de cálculos aritméticos, mas não resolve problemas matemáticos ou algébricos;
33 - embora resolva cálculo algébrico mentalmente, não elabora cálculo aritmético;

34 - tem excelente memória de longo prazo, lembrando experiências, filmes, lugares e faces;
35 - boa memória longa, mas pobre memória imediata, curta e de médio prazo;
36 - pode ter pobre memória visual, mas excelente memória e acuidade auditivas;
37 - pensa através de imagem e sentimento, não com o som de palavras;
38 - é extremamente desordenado, seus cadernos e livros são borrados e amassados;
39 - não tem atraso e dificuldades suficientes para que seja percebido e ajudado na escola;
40 - pode estar sempre brincando, tentando ser aceito nem que seja como "palhaço" ;
41 - frustra-se facilmente com a escola, com a leitura, com a matemática, com a escrita;
42 - tem pré-disposição à alergias e à doenças infecciosas;
43 - tolerância muito alta ou muito baixa à dor;
44 - forte senso de justiça;
45 - muito sensível e emocional, busca sempre a perfeição que lhe é difícil atingir;
46 - dificuldades para andar de bicicleta, para abotoar, para amarrar o cordão dos sapatos;
47 - manter o equilíbrio e exercícios físicos são extremamente difíceis para muitos disléxicos;
48 - com muito barulho, o disléxico se sente confuso, desliga e age como se estivesse distraído;
49 - sua escrita pode ser extremamente lenta, laboriosa, ilegível, sem domínio do espaço na página;
50 - cerca de 80% dos disléxicos têm dificuldades em soletração e em leitura.



Em negrito foi o que eu pude constatar que temos.

Minha psicóloga devia de ser psicoterapeuta


acabei à abandonando...


"Há uma grande diferença entre psicanálise e psicoterapia. As psicoterapias promovem o exercício da alegria prêt-a-porter. Elas querem, na maioria das vezes, tirar a angústia das pessoas e acomodá-las em uma falsa harmonia. A psicanálise não quer desangustiar ninguém. Ela entende que a angústia é fundamental para o ser humano. Se ela é causa de doenças, é também causa de criação. Ninguém cria nada se não estiver angustiado."


Jorge Forbes. A angústia da responsabilidade (entrevista para a revista DROPS – Rio Claro, publicada em 9 de fevereiro de 2009).

Quem sou eu?

Caspar David Friedrich


Sou muitas lembranças, poucos arrependimentos, inúmeras paixões alguns amores e leves cicatrizes.
Alguém que pagou apenas um valor simbólico por todas as escolhas erradas que fez. Enfim uma privilegiada dentre os menos favorecidos.
Possuo como disse Florbela;
alma intensa, violenta atormentada. Um ser que, como citou o camarada Brecht vive a preparar seu próximo erro.
É mais ou menos por aí... esse é o caminho.
Mas se alguém tiver uma definição melhor, por favor me manda por email.


PS_nada de definições malcriadas hein... :)

apesar de, concordo...


Conheço pessoas que pensam (seriamente) que o mundo de hoje não comporta dignidade moral, honradez, acatamento, respeito a si e aos outros. Ah: estes são sinônimos de decoro. Já me  foi dito que estes são valores antiquados, que o mundo de hoje é dinâmico, rápido, interativo: não precisamos fazer cerimônia para nos apresentarmos um ao outro, para tratarmos um ao outro. Até tento compreender esta mudança de paradigma comportamental, mas nunca consigo. E vejo que a morte do decoro resultou numa quebra de hierarquia (que poderia ser celebrada, não fosse a maneira tosca como foi feita), resultou num destrato ainda maior para com o próximo, num exacerbado narcisismo onde nos exibimos, nos escancaramos (postamos pensamentos e fotos íntimas) para todos os amigos e ainda para qualquer conhecido que vimos uma vez na vida e incorporamos no nosso show particular na rede.

Fonte: aqui

Ausência


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada,
Aconchegada nos meus braços,
Que rio e danço
E invento exclamações alegres,
Porque a ausência, essa ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.

(Drummond)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Até que enfim...

minha lista de resoluções para 2012 ficou pronta

  • Fazer um outro plano de previdência para não correr o risco de acabar no asilo.
  • Não dar mais nem uma espiadinha na novela.
  • Reclamar menos.
  • Chorar menos.
  • Reclamar quase de nada.
  • Moderar na bebida.
  • Intensificar os exercícios.
  • Beber pelo menos dois litros de água por dia.
  • Fazer refeições de 3 em 3 horas.
  • Dar menos atenção ao “eu interior”.
  • Perder menos tempo com tudo.
  • Ficar menos dependente das redes sociais.
  • Ler pelo menos 5 BONS livros no ano.
  • Ter mais engajamento social.
  • Doar sangue .
  • Comprar um All Star.
  • Parar de me entupir de Dorflex.
  • Parar de ficar procurando o que não perdi.
  • Parar de odiar os políticos e fazer minha parte.
  • Cumprir pelo menos 10% dessa lista.

A polidez não é tudo, é quase nada.

O que há de pior do que uma criança mal-educada, senão um
adulto ruim? Ora, não somos mais crianças. Sabemos amar, julgar, querer...
Capazes de virtude, pois capazes de amor, que a polidez não poderia substituir.
Um grosseirão generoso sempre será melhor do que um egoísta polido; um
homem honesto descortês melhor do que um crápula refinado. A polidez nada
mais é que uma ginástica de expressão, dizia Alain; é dizer claramente que ela
pertence ao corpo, e, é claro, o coração ou a alma é que prevalecem. Inclusive, há
pessoas em que a polidez incomoda, por causa de uma perfeição que inquieta.
“Polido demais para ser honesto”, diz-se então, pois a honestidade às vezes
impõe ser desagradável, chocar, trombar. Mesmo honestos, aliás, muitos ficarão a
vida toda como que prisioneiros de suas boas maneiras, só se mostrando aos
outros através da vidraça – nunca totalmente transparente – da polidez, como se
tivessem confundido de uma vez por todas a verdade e o decoro. No estilo
certinho, como se diz hoje em dia, há muito disso. A polidez, se levada por
demais a sério, é o contrário da autenticidade. Os certinhos são como crianças
grandes bem-comportadas demais, prisioneiras das regras, enganadas quanto aos
usos e às conveniências. Faltou-lhes a adolescência, graças à qual nos tornamos
homem ou mulher – a adolescência que remete a polidez ao irrisório que lhe é
próprio, a adolescência que está pouco ligando para os usos, a adolescência que
só ama o amor, a verdade e a virtude, a bela, a maravilhosa, a incivil adolescência!
Adultos, eles serão mais indulgentes e mais sensatos. Mas, enfim, se é
absolutamente necessário escolher, e imaturidade por imaturidade, é melhor,
moralmente falando, um adolescente prolongado do que uma criança obediente
demais para crescer – é melhor ser honesto demais para ser polido do que polido
demais para ser honesto!
O saber-viver não é a vida; a polidez não é a moral. Mas não quer dizer que não
seja nada. A polidez é uma pequena coisa, que prepara grandes coisas. 

André Comte-Sponville in; Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
Ed. Martins Fontes, São Paulo, 1999

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Viver é tomar partido


Odeio os indiferentes. Acredito que viver significa tomar partido. Indiferença é apática, parasitismo, covardia. Não é vida. Por isso, abomino os indiferentes. Desprezo os indiferentes, também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Vivo, sou militante. Por isso detesto quem não toma partido. Odeio os indiferentes. 
ANTONIO GRAMSCI

Há começo para a educação, mas não há fim.


A criança, o jovem o adulto tem que ser educados, reeducados, auto-educados, desde o nascedouro até o momento em que as faculdades físicas e mentais permitirem. Há começo para a educação, mas não há fim.

Nada é tão benéfico ao temperamento quanto o estudo das belezas da humanidade, seja a poesia, a literatura, a antropologia, a filosofia, a psicologia, a sociologia, a música ou a pintura. Estas proporcionam certa elegância de sentimento e as emoções que excitam são suaves e ternas. Libertam a mente das pressões dos negócios e dos interesses imediatos, e levam aos recônditos da alma humana; estimulam a reflexão, predispõem o espírito à tranqüilidade. E uma delicadeza de gosto é favorável à amizade por não limitar a nossa escolha a menos pessoas, e por nos tornar agradáveis à companhia e à conversação da maior parte dos homens.

Roberto de Barros Freire in: Dez proposições para uma filosofia simples
Décima proposição: A política de educar pg. 89 e 93

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A inconveniente "verdade"

Contaram-me que aconteceu em algum lugar não tão distante assim:
Que por onde passava a tal verdade causava um grande mal estar.
Causava rompimento amoroso, causava desgosto entre pais e filhos, causava incômodo entre familiares, divergências entre os chefes, mal estar entre os membros da sociedade. A tal da verdade chegou mesmo causar guerras entre alguns povos mais irritadiços.
Até que um dia o grande rei mandou chamar a verdade.
Lá chegou ela. Com toda sua complexidade e antagonicamente simples.
E quando questionada a respeito de suas desordens, disse ironicamente:
-Eu não entendo, me querem, me clamam, me exigem, chegam a me implorar e quando apareço, é essa indignação toda. Vai entender.
E continuou:
-São tantas perguntas para me obter e quando me têm na palma mãos, dizem que eu queimo, faço mal, envergonho e entristeço.
-Não busquem oras! Disse a verdade.
Ando muito bem às escondidas.
Não sou de sair batendo em portas. Não preciso de muitos.
O grande Rei se irritou com a verdade e disse:
-Cale-se e não me venhas com as suas, quem disse que eu quero ouvir a verdade.
-A verdade me incomoda.
-Tirem a verdade daqui.
-Guardas, guardas prendam a verdade!
Joguem-na em um calabouço, sumam com ela.
Não a deixem mais ver a luz do dia, a verdade só será permitida nas madrugadas, às escondidas. 

Entre os excluídos. Os que não são bem vindos e bem vistos.
A verdade não pode andar por aí em meio à gente decente.
Em meio a essa gente “decente e feliz”.
E já que não posso exterminá-la, a banirei de nosso meio.
E assim aconteceu...

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Biblioteca Comunitária Presidente Juscelino Kubitschek



Nesse humilde casebre contém algumas poucas sementes de uma das coisas que ainda poderia ajudar na salvação do planeta em nossa própria. 
Que tal ajudarmos a aumentar essas sementes? 

Esta foto é da Biblioteca Comunitária Presidente Juscelino Kubitschek e Arquivo Sarah Kubitschek, que fica em Três Altos, zona rural do município de Almino Afonso, distante 380km de Natal (RN). O idealizador é o Danilo, conseguiu através de doações um acervo de mais de 2 mil livros e muitas vezes andou muitos kms para ir buscá-los. Além de apaixonado por livros, é fã do Roberto Carlos, e me enviou um longo email contando as ações incríveis de sua biblioteca. O IPEA vai realizar um documentário sobre este trabalho, e as fotos que ele me enviou são incríveis. Nada me pediu, mas eu enviei o livro "Um Show em Jerusalém" para o acervo. 


Amigos, caso queiram colaborar com a biblioteca o endereço é:
Danilo Bezerra Vieira sítio Três Altos, 
casa n'6, zona rural, 
Almino Afonso-RN 
CEP:59760-000.

Assombros




Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.

Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro. 

(Affonso Romano de Sant'Anna)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A verdade proibida

[...] ora, me dê licença, meu caro, deixa eu passar. 
Sou sério e honesto e se não digo a verdade é porque esta é proibida. 
Eu não aplico o proibido...


Clarice in: Um sopre de vida

Uma correria só, mas não deixo de reservar um sagrado tempo para minha leve meditação sobre o nada....

Sobre o tempo




Tempo para mim significa a desagre­gação da matéria. O apodrecimento do que é orgânico como se o tempo tivesse como um verme dentro de um fruto e fosse roubando a este fruto toda a sua pol­pa.
Clarice Lispector

Intensidade ou loucura?

By:Edvard Munch


Disseram que minha intensidade assusta, até a confundiram com loucura. Desculpem-me os que estão acostumados com coisas mornas. Morno pra mim, nem leite. O dia que a vida se transformar em algo previsível, não terei mais motivos para ativar o despertador...

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Regra básica


´´A regra básica é que uma pessoa deve respeitar a opinião pública apenas o suficiente para não morrer de fome nem ir para a cadeia. Tudo o que passar deste ponto significa voluntariamente a uma tirania desnecessária e , provavelmente , é isso que acaba interferindo na própria felicidade´´


Bertrand Russel

Sou feliz na hora errada. Infeliz quando todos dançam.

Clarice Lispector

Tédio
















Picture by Edvard Munch

Há uma ou duas décadas, o vazio que a classe a média principiava a sentir em ampla escala podia ainda ser considerado como "doença dos subúrbios". O quadro mais nítido de uma vida vazia é o do homem suburbano, que se levanta à mesma hora todos os dias, toma o mesmo trem para trabalhar na cidade, executa as mesmas tarefas no escritório, almoça no mesmo restaurante, deixa diariamente a mesma gorjeta para o garçom, volta para no mesmo trem, tem dois-três filhos, cuida de um pequeno jardim, passa duas semanas de férias na praia todo verão, férias que ele não aprecia, vai à igreja no natal e na páscoa, levando assim uma existência rotineira, mecânica, ano após ano, até finalmente aposentar-se aos sessenta e cinco e morrer, pouco depois, do coração, num colapso causado talvez por hostilidade recalcada. Sempre suspeitei porém, que morre mesmo de tédio.

(Rollo May, in "O homem à procura de si mesmo")

Fonte: aqui

domingo, 8 de janeiro de 2012

sei como é Caio


Cada contato meu com alguma pessoa representava uma perda enorme de energia vital:
eu saía esgotado, confuso, com dor de cabeça e, principalmente,
com dor por não poder fazer nada pelo desespero alheio.
A minha própria miséria aumentava.
Foi aí que a solidão deixou de ser involuntária para se transformar em escolha.
E foi bom, está sendo bom.
Passo o dia lendo, ouvindo música,
vendo velhos filmes na televisão,
de vez em quando vou ao cinema ou saio para passear na beira do rio que passa atrás do edifício.
Fico lá sentado numa pedra,
fumando e pensando nas pessoas que perdi,
senão em afeto,
pelo menos em proximidade física.

Caio F.

Baudelaire e o vinho

By Nasha Gil



"Profundos prazeres do vinho, quem não os conhece? Quem quer que tenha tido um remorso a aplacar, uma lembrança a evocar, uma dor a esquecer, um castelo na Espanha a construir, todos enfim já o evocaram, deus misterioso escondido nas fibras da videira."

"Muitas pessoas dirão que sou indulgente. 'Você inocenta a embriaguez!' Isso dirão os imbecis ou hipócritas; imbecis, isto é, homens que não conhecem nem a natureza nem a humanidade, artistas que recusam os meios da arte, operários que blasfemam contra a mecânica - hipócritas, isto é, comilões reprimidos, impostores da sobriedade, que bebem sozinho e tem algum vício oculto. Um homem que só bebe água tem um segredo a esconder de seus semelhantes."
Charles Baudelaire 


Para conhecer um pouco mais dos trabalhos de Nasha Gil clique aqui .

Da minha janela

Da minha janela eu vejo a correria
Correia da gente esperta, correndo atrás da saúde
Dos macacos correndo atrás da comida
Morcegos aproveitando a noite
Cães correndo atrás de brincadeiras
Folhas correndo ao vento.
Eita, correria boa essa!

Da minha janela eu ouço uma barulhada,
A passarada canta até na madrugada.

Da minha janela eu vejo a noite enluarada,
Manhãs ensolaradas
E a beleza da chuvarada.
Que molha a natureza.
Que agradece com sorriso verdinho e florido.

Da minha janela eu vejo a vida renascendo
A cada manhã maravilhada.
Ou será que foi essa janela,
Que me deixou com as vistas encantada?




















sábado, 7 de janeiro de 2012

O amor antigo



O amor antigo vive de si mesmo, não de cultivo alheio ou de presença. Nada exige nem pede. Nada espera, mas do destino vão nega a sentença. O amor antigo tem raízes fundas, feitas de sofrimento e de beleza. Por aquelas mergulha no infinito, e por estas suplanta a natureza. Se em toda parte o tempo desmorona aquilo que foi grande e deslumbrante, o antigo amor, porém, nunca fenece e a cada dia surge mais amante. Mais ardente, mas pobre de esperança. Mais triste? Não. Ele venceu a dor, e resplandece no seu canto obscuro, tanto mais velho quanto mais amor. 
Drummond

Seu nome

É a minha:



se eu tivesse um bar ele teria o seu nome
se eu tivesse um barco ele teria o seu nome


se eu comprasse uma égua daria a ela o seu nome
minha cadela imaginária tem o seu nome
se eu enlouquecer passarei as tardes repetindo o seu nome
se eu morrer velhinho, no suspiro final balbuciarei o seu nome
se eu for assassinado com a boca cheia de sangue gritarei o seu nome
se encontrarem meu corpo boiando no mar no meu bolso haverá um bilhete com o seu nome
se eu me suicidar ao puxar o gatilho pensarei no seu nome
a primeira garota que beijei tinha o seu nome
na sétima série eu tinha duas amigas com o seu nome
antes de você tive três namoradas com o seu nome
na rua há mulheres que parecem ter o seu nome
na locadora que frequento tem uma moça com o seu nome
às vezes as nuvens quase formam o seu nome
olhando as estrelas é sempre possível desenhar o seu nome
o último verso do famoso poema de Éluard poderia muito bem ser o seu nome
Apollinaire escreveu poemas a Lou porque na loucura da guerra não conseguia lembrar o seu nome
não entendo por que Chico Buarque não compôs uma música para o seu nome
se eu fosse um travesti usaria o seu nome
se um dia eu mudar de sexo adotarei o seu nome
minha mãe me contou que se eu tivesse nascido menina teria o seu nome
se eu tiver uma filha ela terá o seu nome
minha senha do e-mail já foi o seu nome
minha senha do banco é uma variação do seu nome
tenho pena dos seus filhos porque em geral dizem “mãe” em vez do seu nome
tenho pena dos seus pais porque em geral dizem “filha” em vez do seu nome
tenho muita pena dos seus ex-maridos porque associam o termo ex-mulher ao seu nome
tenho inveja do oficial de registro que datilografou pela primeira vez o seu nome
quando fico bêbado falo muito o seu nome
quando estou sóbrio me controlo para não falar demais o seu nome
é difícil falar de você sem mencionar o seu nome
uma vez sonhei que tudo no mundo tinha o seu nome
coelho tinha o seu nome
xícara tinha o seu nome
teleférico tinha o seu nome
no índice onomástico da minha biografia haverá milhares de ocorrências do seu nome
na foto de Korda para onde olha o Che senão para o infinito do seu nome?
algumas professoras da USP seriam menos amargas se tivessem o seu nome
detesto trabalho porque me impede de me concentrar no seu nome
cabala é uma palavra linda, mas não chega aos pés do seu nome
no cabo da minha bengala gravarei o seu nome
não posso ser niilista enquanto existir o seu nome
não posso ser anarquista se isso implicar a degradação do seu nome
não posso ser comunista se tiver que compartilhar o seu nome
não posso ser fascista se não quero impor a outros o seu nome
não posso ser capitalista se não desejo nada além do seu nome
quando saí da casa dos meus pais fui atrás do seu nome
morei três anos num bairro que tinha o seu nome
espero nunca deixar de te amar para não esquecer o seu nome
espero que você nunca me deixe para eu não ser obrigado a esquecer o seu nome
espero nunca te odiar para não ter que odiar o seu nome
espero que você nunca me odeie para eu não ficar arrasado ao ouvir o seu nome
a literatura não me interessa tanto quanto o seu nome
quando a poesia é boa é como o seu nome
quando a poesia é ruim tem algo do seu nome
estou cansado da vida, mas isso não tem nada a ver com o seu nome
estou escrevendo o quinquagésimo oitavo verso sobre o seu nome
talvez eu não seja um poeta a altura do seu nome
por via das dúvidas vou acabar o poema sem dizer explicitamente o seu nome
Fabrício Corsaletti

Nuvem passageira


Sou como um viajante que não dorme
Mais de uma noite na mesma parada,
Dê-me um beijo e esqueça-me
Não se apegue, não tente me segurar.

Meu prazer está na caminhada
 Sou nuvem passageira
Fogo efêmero.
Um bom amante, porém um companheiro ausente.

Sorria na despedida
E lembre-se:
Meu prazer esta na caminhada!

Amo o descobrir,
Amo o que nasce, pois nasce feliz.
Então não tente me segurar, deixa-me ir
Como o curso de um rio, a onda do mar.
 

Já tiveste meu perfume meus carinhos
Agora deixa-me ir, se não morro
Envelheço, apodreço, me desfaço
Viro chuva.


Afinal, sou nuvem passageira.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

É preciso não confundir o amor-próprio e o amor de si mesmo...



É preciso não confundir o amor-próprio e o amor de si mesmo, duas paixões muito diferentes pela sua natureza e pelos seus efeitos. O amor de si mesmo é um sentimento natural que leva todo o animal a velar pela sua própria conservação, e que, dirigido no homem pela razão e modificado pela piedade, produz a humanidade e a virtude. O amor-próprio é apenas um sentimento relativo, factício e nascido na sociedade, que leva cada indivíduo a fazer mais caso de si do que de qualquer outro, que inspira aos homens todos os males que se fazem mutuamente, e que é a verdadeira fonte da honra.

Bem entendido isso, repito que, no nosso estado primitivo, no verdadeiro estado de natureza, o amor-próprio não existe; porque, cada homem em particular olhando a si mesmo como o único espectador que o observa, como o único ser no universo que toma interesse por ele, como o único juiz do seu próprio mérito, não é possível que um sentimento que teve origem em comparações que ele não é capaz de fazer possa germinar na sua alma.

Pela mesma razão, esse homem não poderia ter ódio nem desejo de vingança, paixões que só podem nascer da opinião de alguma ofensa recebida. E, como é o desprezo ou a intenção de prejudicar, e não o mal, que constitui a ofensa, homens que não se sabem apreciar nem se comparar podem fazer-se muitas violências mútuas para tirar alguma vantagem, sem jamais se ofenderem reciprocamente. Numa palavra, cada homem, vendo os seus semelhantes apenas como veria os animais de outra espécie, pode arrebatar a presa ao mais fraco ou ceder a sua ao mais forte, sem encarar essas rapinagens senão como acontecimentos naturais, sem o menor movimento de insolência ou de despeito, e sem outra paixão que a dor ou a alegria de um bom ou mau sucesso.

Jean-Jacques Rousseau, in 'Discurso Sobre a Origem da Desigualdade'

Sinto, mas esse amor não conhecemos.

 "O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta."
I Coríntios 13:4-7

NUNCA É TARDE PARA APRENDER


1. A vida não é justa, mas ainda é boa.
2. Quando estiver em dúvida, dê somente o próximo passo, pequeno.
3. A vida é muito curta para desperdiçá-la odiando alguém.
4. Seu trabalho não cuidará de você quando você ficar doente. Seus amigos e familiares cuidarão. Permaneça em contato.
5. Pague mensalmente seus cartões de crédito.
6. Você não tem que ganhar todas as vezes. Concorde em discordar.
7. Chore com alguém. Cura melhor do que chorar sozinho.
8. Pode ficar bravo com Deus. Ele suporta isso.
9. Economize para a aposentadoria começando com seu primeiro salário.
10. Quanto a chocolate, é inútil resistir.
11. Faça as pazes com seu passado, assim ele não atrapalha o presente.
12. É bom deixar suas crianças verem que você chora.
13. Não compare sua vida com a dos outros. Você não tem idéia do que é a jornada deles.
14. Se um relacionamento tiver que ser um segredo, você não deveria entrar nele.
15. Tudo pode mudar num piscar de olhos. Mas não se preocupe; Deus nunca pisca.
16. Respire fundo. Isso acalma a mente.
17. Livre-se de qualquer coisa que não seja útil, bonito ou alegre.
19. Nunca é muito tarde para ter uma infância feliz. Mas a segunda vez é por sua conta e ninguém mais.
20. Quando se trata do que você ama na vida, não aceite um pouco como resposta.
21. Acenda as velas, use os lençóis bonitos, use roupa chic. Não guarde isso para uma ocasião especial. Hoje é especial.
22. Prepare-se mais do que o necessário, depois siga o fluxo.
23. Seja excêntrico agora. Não espere para a velhice para vestir roxo.
24. O órgão sexual mais importante é o cérebro.
25. Ninguém mais é responsável pela sua felicidade somente você.
26. Enquadre todos os assim chamados "desastres" com estas palavras "Em cinco anos, isso importará?"
27. Sempre escolha a vida.
28. Perdoe tudo de todo mundo.
29. O que outras pessoas pensam de você não é da sua conta.
30. O tempo cura quase tudo. Dê tempo ao tempo.
31. Não importa quão boa ou ruim é uma situação ela mudará.
32. Não se leve muito a sério. Ninguém faz isso.
33. Acredite em milagres.
34. Deus ama você porque ele é Deus, não por causa de qualquer coisa que você fez ou não fez.
35. Não faça auditoria na vida. Destaque-se e aproveite ao máximo agora.
36. Envelhecer ganha da alternativa morrer jovem.
37. Suas crianças tem apenas uma infância.
38. Tudo que verdadeiramente importa no final é que você amou.
39. Saia de casa todos os dias. Os milagres estão esperando em todos os lugares.
40. Se todos nós colocássemos nossos problemas em uma pilha e víssemos todos os outros como eles são, nós pegaríamos nossos mesmos problemas de volta.
41. A inveja é uma perda de tempo. Você já tem tudo o que precisa.
42. O melhor ainda está por vir.
43. Não importa como você se sente, levante-se, vista-se bem e apareça.
44. Produza!
45. A vida não está amarrada com um laço, mais ainda é um presente.


Escrito por Regina Brett, com apenas 90 anos de idade, assina uma coluna no The Plain Dealer, Cleveland, Ohio.
"Para celebrar o meu envelhecimento, certo dia eu escrevi as 45 lições que a vida me ensinou. 
É a coluna mais solicitada que eu já escrevi."

Que todos podemos, num dado instante, escorregar para o negro.

A Lia era assim. O Partido era assim: um clube onde ganha o que mais depressa conseguir caçar e comer as qualidades dos outros. E isso, explicavas-me, não era mentir, entraste no mundo especializado onde mentir era diferente de omitir. Muito menos grave. E a traição só existia quando muito repetida, nos mesmos lugares, com as mesmas pessoas. O resto - inconfidências, sexo, intrigas, queixas - eram apenas escapadelas humanas.


 O teu código moral burocratizou-se; havia alíneas para todas as infracções. E mesmo as maiores passaram a ter pouco valor.


Aprendeste que é mínima a distância - um deslize e um crime.


Que todos podemos, num dado instante, escorregar para o negro.


Uma bebida, duas, um bêbado, um assassino; um charro, um cheiro de coca, uma dependência, um ladrão. A vida tornava-se assim.


Incontida. Demasiado simples e complexa. Música em crescendo, ensurdecedora. 
Sem qualquer verdade de partida


Fazes-me Falta, Inês Pedrosa