quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A polidez não é tudo, é quase nada.

O que há de pior do que uma criança mal-educada, senão um
adulto ruim? Ora, não somos mais crianças. Sabemos amar, julgar, querer...
Capazes de virtude, pois capazes de amor, que a polidez não poderia substituir.
Um grosseirão generoso sempre será melhor do que um egoísta polido; um
homem honesto descortês melhor do que um crápula refinado. A polidez nada
mais é que uma ginástica de expressão, dizia Alain; é dizer claramente que ela
pertence ao corpo, e, é claro, o coração ou a alma é que prevalecem. Inclusive, há
pessoas em que a polidez incomoda, por causa de uma perfeição que inquieta.
“Polido demais para ser honesto”, diz-se então, pois a honestidade às vezes
impõe ser desagradável, chocar, trombar. Mesmo honestos, aliás, muitos ficarão a
vida toda como que prisioneiros de suas boas maneiras, só se mostrando aos
outros através da vidraça – nunca totalmente transparente – da polidez, como se
tivessem confundido de uma vez por todas a verdade e o decoro. No estilo
certinho, como se diz hoje em dia, há muito disso. A polidez, se levada por
demais a sério, é o contrário da autenticidade. Os certinhos são como crianças
grandes bem-comportadas demais, prisioneiras das regras, enganadas quanto aos
usos e às conveniências. Faltou-lhes a adolescência, graças à qual nos tornamos
homem ou mulher – a adolescência que remete a polidez ao irrisório que lhe é
próprio, a adolescência que está pouco ligando para os usos, a adolescência que
só ama o amor, a verdade e a virtude, a bela, a maravilhosa, a incivil adolescência!
Adultos, eles serão mais indulgentes e mais sensatos. Mas, enfim, se é
absolutamente necessário escolher, e imaturidade por imaturidade, é melhor,
moralmente falando, um adolescente prolongado do que uma criança obediente
demais para crescer – é melhor ser honesto demais para ser polido do que polido
demais para ser honesto!
O saber-viver não é a vida; a polidez não é a moral. Mas não quer dizer que não
seja nada. A polidez é uma pequena coisa, que prepara grandes coisas. 

André Comte-Sponville in; Pequeno Tratado das Grandes Virtudes
Ed. Martins Fontes, São Paulo, 1999

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