quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Alfred Eisenstaedt
Molyneux atelier Paris, 1934


Para Sabina, viver na verdade, não mentir nem a si próprio nem aos outros, só é possível se não houver público nenhum. A partir do momento em que os nossos atos têm uma testemunha, quer queiramos quer não, adaptamo‑nos aos olhos que nos observam; e, a partir de então, nada do que fazemos é verdadeiro. 
Ter um público, pensar num público, é viver na mentira. 
Milan Kundera in: A insustentável leveza do ser

Recuerda

Frida por Manuel Alvarez Bravo

"Recuerda que cada tic-tac es un segundo de la vida que pasa, huye y no se repite, y hay en ella tanta intensidad, tanto interés, que solo es el problema de saberla vivir. 
Que cada uno lo resuelva como pueda" 
Frida Kahlo

De consciência tranquila e coração vazio...

Ela dormiria assim



Ela escapou de adormecer só com a razão como companheira. De perder a companhia da emoção, que há tempos vem lhe fazendo tão bem.
Escapou das garras do Superego.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

É atraído pela luz como também o é pela obscuridade.

Milan Kundera

Sobre o fim



Belo, o amor deles certamente que o era   mas também tão penoso: sempre a esconder qualquer coisa, sempre a dissimular, a fingir, a reparar, a levantar lhe o moral, a consolá - la, continuamente a provar lhe que a amava, a ouvi-la queixar se dos seus ciúmes, do seu sofrimento, dos seus sonhos, a sentir se culpado, a justificar se, a desculpar se. Agora, o esforço desaparecera e não ficara senão a beleza.
Milan Kundera: in  A insustentável leveza do ser

Inferno


 CANTO I 

No meio do caminho desta vida
me vi perdido numa selva escura,
solitário, sem sol e sem saída.

Ah, como armar no ar uma figura
desta selva selvagem, dura, forte,
que, só de eu a pensar, me desfigura?

É quase tão amargo como a morte;
mas para expor o bem que encontrei,
outros dados darei da minha sorte.

Não me recordo ao certo como entrei,
tomado de uma sonolência estranha,
quando a vera vereda abandonei.

Sei que cheguei ao pé de uma montanha,
lá onde aquele vale se extinguia,
que me deixara em solidão tamanha,

e vi que o ombro do monte aparecia
vestido já dos raios do planeta
que a toda gente pela estrada guia.

Então a angústia se calou, secreta,
lá no lago do peito onde imergira
a noite que tomou minha alma inquieta;

e como náufrago, depois que aspira
o ar, abraçado à areia, redivivo,
vira-se ao mar e longamente mira,

o meu ânimo, ainda fugitivo,
voltou a contemplar aquele espaço
que nunca ultrapassou um homem vivo.

(...)

                  
Dante Alighieri : in A Divina Comédia
Tradução: Augusto de Campos

A Dança



Não te amo como se fosses a rosa de sal, topázio

Ou flechas de cravos que propagam o fogo:

Te amo como se amam certas coisas obscuras,

Secretamente, entre a sombra e a alma.

Te amo como a planta que não floresce e leva

Dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,

E graças a teu amor vive escuro em meu corpo

O apertado aroma que ascendeu da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,

Te amo assim diretamente sem problemas nem orgulho:

Assim te amo porque não sei amar de outra maneira,

Senão assim deste modo que não sou nem és,

Tão perto que tua mão sobre o meu peito é minha,

Tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.

Antes de amar-te, amor, nada era meu:

Vacilei pelas ruas e as coisas:

Nada contava nem tinha nome:

O mundo era do ar que esperava.

E conheci salões cinzentos,

Túneis habitados pela lua,

Hangares cruéis que se dependiam,

Perguntas que insistiam na areia.

Tudo estava vazio, morto e mudo,

Caído, abandonado, decaído,

Tudo era inalianavelmente alheio,

Tudo era dos outros e de ninguém,

Até que tua beleza e tua pobreza

De dádivas encheram o outono.
Pablo Neruda



Poema belamente recitado por Robin Williams na lápide de sua amada no filme
Patch Adams O amor é contagioso [RECOMENDO] para quem ainda não viu.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Prefiro me afundar em mim, a ter que ouvir gente falando merda ou contando vantagem.



‎"Mas sou atrevida por natureza e adepta da frase de Nietzsche: "Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeiramente companhia." Aí Nietzsche, voce sempre soube! É isso mesmo. Eu odeio e assino em baixo. E odeio com todas as forças, com todas as letras, em capslock, de trás pra frente, em inglês ou em latim. EU ODEIO. Sou uma ótima companhia pra mim mesmo. Adoro ficar sozinha, lendo, escrevendo ou fazendo o meu nada. Prefiro me afundar em mim, a ter que ouvir gente falando merda ou contando vantagem."
Fernanda Mello

As crianças de Manuel Álvarez Bravo








Um pouco do belíssimo trabalho de Manuel Álvarez Bravo, considerado o maior fotografo mexicano. As fotos acima não fazem parte de suas obras mais conhecidas, na verdade pertencem ao arquivo encontrado após sua morte em 2002 e catalogadas em 2005. Entre seus principais trabalhos estão várias fotos que ele fez da pintora Frida Kahlo, uma de suas apreciadoras.

Para conhecer mais acesse: manuelalvarezbravo.org/espagnol/Material-de-archivo

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Ausência



Desfiar tua ausência, pois me aflige 
tecer sozinha este enternecimento, 
e meu corpo é bordado pensamento 
de juntar teu desejo ao meu desejo (...) 
Musicar tua ausência, que meu sonho 
— em cada gesto que se prenuncia 
compõe nas veias pautas de agonia, 
acordes dissonantes em meu corpo. 
                      Yeda Prates Bernis 

Este mundo é dos namorados


Não há como a paixão do amor
para fazer original o que é comum,
e novo o que morre de velho.

Cada qual sabe amar a seu modo;
o modo pouco importa;
o essencial é que saiba amar.

Este mundo é dos namorados."

Machado para Jovens Leitores, p. 14

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Pudesse eu repartir-me e encontrar minha calma dando a Arlequim meu corpo e a Pierrot a minh’alma!

Carnaval de Arlequim, do pintor espanhol Joan Miró.





Em qualquer terra em que os homens amem.
Em qualquer tempo onde os homens sonhem.
Na vida.






BEIJO DE ARLEQUIM I


O crescente cintila como uma cimitarra. Lírios longos, grandes mãos
brancas estendidas para o luar, bracejam nas pontas das hastes. Uma
balaustrada. Uma bandurra. Um Arlequim. Um Pierrot E, sobre as
máscaras e os lírios, a volúpia da noite, cheia de arrepios e de aromas.

ARLEQUIM diz: Foi assim: deslumbrava a fidalga beleza da turba nos salões da Senhora Duquesa.
Um cravo, em tom menor, numa voz quase humana, tecia o madrigal de uma antiga pavana. Eu descera ao jardim. Cheirava a heliotrópio e vi, como quem vê num vago sonho de ópio, uma loura mulher...


PIERROT


Loura?


ARLEQUIM
Como as espigas...
Como os raios de sol e as moedas antigas...Notei-lhe, sob o luar, a cabeleira crespa, 
anca em forma de lira e a cintura de vespa, um cravo no listão que o seio lhe bifurca,
pezinhos de mousmé, olhos grandes, de turca... A boca, onde o sorriso era como uma abelha, recendia tal qual uma rosa vermelha.


PIERROT


Falaste-lhe?


ARLEQUIM


Falei...


PIERROT


E a voz?


ARLEQUIM


Vaga e fugace.
Tinha a voz de uma flor, se acaso a flor falasse...


PIERROT


E depois?


ARLEQUIM


Eu fiquei, sob a noite estrelada, decidido a ousar tudo e não ousando nada...
Vinha dela, pelo ar, espiritualizado numa onda volúpia, um cheiro de pecado...
Tinha a fascinação satânica, envolvente, que tem por um batráquio o olhar duma serpente... e fiquei, mudo e só, deslumbrado e tristonho, sentindo que era real o que eu julgava um sonho! Em redor o jardim recendia.
Umas poucas
tulipas cor de sangue, abertas como bocas, pela voz do perfume insinuavam perfídias...


Tremia de pudor a carne das orquídeas... Os lírios senhoreais, esbeltos como galgos, 
abriram para o céu cinco dedos fidalgos fugindo à mão floral do cálix longo e fino.
Um repuxo cantava assim como um violino e, orquestrando pelo ar as harmonias rotas, desmanchava-se em sons, ao desfazer-se em gotas! Entre a noite e a mulher, eu trêmulo hesitava: se a noite seduzia, a mulher deslumbrava!
Dei uns passos
Ao ruído agitou-se assustada. Viu-me...


PIERROT


E ela que fez?


ARLEQUIM


Deu uma gargalhada.


PIERROT


Por que?


ARLEQUIM


Sei lá! Mulher...Talvez porque ela achasse ridículo Arlequim com ar de Lovelace...
Aconcheguei-me mais: “Deus a guarde, Senhora!”
- Obrigada. Quem és?
- “Um arlequim que a adora!”


Vinha do seio dela, entre a renda e a miçanga, um cheiro de mulher e um cheiro de cananga. Eram os olhos seus, sob a fronte alva e breve, como dois astros de ouro a arder num céu de neve. Mordia, por não rir, o lábio úmido e langue, vermelho como um corte inda vertendo sangue...E falei-lhe de amor...


PIERROT


E ela?


ARLEQUIM


Ficou calada...
Meu amor disse tudo, ela não disse nada, mas ouviu , com prazer, a frase que renova
no amor que é sempre velho, a emoção sempre nova!


PIERROT


Que lhe disseste enfim?


ARLEQUIM


O ardor do meu desejo,
a glória de arrancar dos seus lábios um beijo, a volúpia infernal dos seus olhos
devassos, o prazer de a estreitar , nervoso, nos meus braços, de sentir a lascívia heril dos seus meneios, esmagar no meu peito a carne dos seus seios!


PIERROT, assustado:


Tu ousaste demais...


ARLEQUIM, cínico:


Ingênuo! A mulher bela 
adora quem lhe diz tudo o que é lindo nela. Ousa tudo, porque todo o homem enamorado se arrepende, afinal, de não ter tudo ousado.


PIERROT


E ela?


ARLEQUIM


Vinha pelo ar, dos zéfiros no adejo, um perfume de amor lascivo como um beijo, como se o mundo em flor vibrasse, quente e vivo, no erotismo triunfal de um amor coletivo!
PIERROT, fremindo:


E ela?


ARLEQUIM


Ansiando, ouviu toda essa paixão louca, levantou-se...


PIERROT


Depois?


ARLEQUIM , triunfante:


Deu-me um beijo na boca!


Um silêncio cheio de frêmito. Os lírios tremem. Pierrot 
olha o crescente. Arlequim dá um passo, vê a brandura,
toma-a entre as mãos nervosas e magras e tange, distraído, 
as cordas que gemem.


ARLEQUIM


Linda viola.


PIERROT, alheado:


Bom som...


ARLEQUIM


Que musicais surpresas não encerra a mudez
destas cordas retesas...


Confidencial a Pierrot:


Olha: penso, Pierrot, que não existe em suma, entre a viola e a mulher, diferença nenhuma. Questão de dedilhar, com certa audácia e calma, numa...estas cordas de aço, e na outra...as cordas d’alma!


Suavemente, exaltando-se:


O beijo da mulher! Ó sinfonia louca da sonata que o amor improvisa na boca... No contado do lábio, onde a emoção acorda, sentir outro vibrar, como vibra uma corda... À vaga orquestração da frase que sussurra ver um corpo fremir tal qual uma bandurra...Desfalecer ouvindo a música que canta no gemido de amor que morre na garganta...Colar o lábio ardente à flor de um seio lindo, ir aos poucos subindo...ir aos poucos subindo...até alcançar a boca e escutar, num arquejo, o universo parar na síncope de um beijo!


Eis toda a arte de amar! Eis, Pierrot fantasista, a suprema criação da minha alma de artista. Compreendes?


PIERROT, ansiado:


E a mulher?


ARLEQUIM, lugubremente:


A mulher? É verdade...
Levou naquele beijo a minha mocidade.


PIERROT


E agora? Onde ela está?


ARLEQUIM, ironicamente místico:


No meu lábio, no ardor desse beijo, que é todo um romance de amor!


Seduzido pela angústia da saudade:


No temor de pedi-lo e na glória de tê-lo...
No gozo de prová-lo e na dor de perdê-lo...
No contato desfeito e no rumor já mudo...
No prazer que passou...Nesse nada que é tudo: 
O passado!... a lembrança... a saudade... o desejo...


Balbuciando:


Um jardim... Um repuxo...Uma mulher... Um beijo....
(Longo silêncio cheio de evocação e de cismas).






PIERROT, ingenuamente:


É audaciosa demais a tua história...


ARLEQUIM, ríspido:


Enfim,
um Arlequim, Pierrot, é sempre um Arlequim. Toda história de amor só presta se tiver, como ponto final, um beijo de mulher!


O SONHO DE PIERROT II


PIERROT


Eu também, Arlequim, nesta vida ilusória, como todos Pierrots, eu tenho uma história, vaga, talvez banal, mas triste como um cântico...


ARLEQUIM, sarcástico:


Não compreendo um Pierrot que não seja romântico, branco como o marfim, magro como um caniço, enchendo o mundo de ais, sem nunca passar disso.


PIERROT


Debochado Arlequim!
ARLEQUIM


Branco Pierrot tristonho...
PIERROT


Teu amor é lascívia!


ARLEQUIM


E o teu amor é sonho...


PIERROT


É tão doce sonhar!... A vida , nesta terra, vale apenas, talvez, pelo sonho que encerra. Ver vaga e espiritual, das cismas nos refolhos, toda uma vida arder na tristeza de uns olhos; não tocar a que se ama e deixar intangida aquela que resume a nossa própria vida, eis o amor, Arlequim. , misticismo tristonho, que transforma a mulher na incerteza de um sonho....
ARLEQUIM, escarninho:


Esse amor tão sutil que teus nervos reclama só se aplica aos Pierrots?


PIERROT


Não! A todos os que amam!
Aos que têm esse dom de encontrar a delícia na intenção da carícia e nunca na carícia...Aos que sabem, como eu, ver que no céu reflete a curva do crescente, um vulto de Pierrette...


ARLEQUIM, zombeteiro:


Eterno sonhador! Tu crês que vive a esmo tudo aquilo que sai de dentro de ti mesmo. Vês, se fitas o céus, garota e seminua, Colombina sentada entre os cornos da lua...Quanta vezes não viste o seu olhar abstrato nos fosfóreos vitrais das pupilas de um gato?


PIERROT


Essas frases cruéis, que mordem como dentes, só mostram, Arlequim, que somos diferentes. Mas minha alma, afinal, é compassiva e boa: não compreendes Pierrot. E Pierrot te perdoa...


ARLEQUIM


Tua história, vai lá! Senta-te nesse banco. Conta-me: “Era uma vez um Pierrot muito branco...”
A história de um Pierrot sempre nisso consiste... Começa.


PIERROT narrando:


“Era uma vez... um Pierrot... muito triste... “


Uma voz, na distância, corta, argentina, a narração de Pierrot.


A VOZ


Foi um moço audaz, que vejo
no meu sonho claro e doce,
O amor que primeiro amei..
Abraçou-me: deu-me um beijo
e, depois, lento, afastou-se,
e nunca mais o encontrei.


Num ser pálido e doente
resume-se o que consiste
o segundo amor que amei.
Ele olhou-me tristemente...
Eu olhei-o muito triste...
E nunca mais o encontrei!


Esse amor deu-me o desejo
daquele beijo encontrar.
Mas nunca, reunidas, vejo,
a volúpia desse beijo,
e a tristeza desse olhar...


A voz agoniza nos ecos. Pierrot e Arlequim tendem o ouvido procurando no ar mais uma estrofe.


ARLEQUIM


Essa voz...


PIERROT


Essa voz...


ARLEQUIM


Só de ouvi-la estremeço...


PIERROT


Eu conheço essa voz!


ARLEQUIM


Essa voz eu conheço...


Um sopro de brisa arrepia as plantas.


PIERROT
Escuta...


ARLEQUIM


Escuta...
PIERROT
Ouviste?


ARLEQUIM
Um sussurro...


PIERROT


Um lamento...


ARLEQUIM


Foi o vento talvez.


PIERROT


Sim. Talvez fosse o vento.


ARLEQUIM


Conta a história, Pierrot.


Pierrot continuando:


Numa noite divina
como tu, num jardim, encontrei Colombina. Loira como um trigal e branca como a lua.


ARLEQUIM


Era loira também?


PIERROT


Tão loira como a tua...
Eu descera ao jardim quebrado de fadiga. Dançavam no salão...


ARLEQUIM, interrompendo:


... uma pavana antiga,
e notaste ao luar a cabeleira crespa...


PIERROT


... a anca em forma de lira...




ARLEQUIM


... e a cintura de vespa!


PIERROT


Mãos mimosas, liriais...


ARLEQUIM


Em minúcias te expandes!


PIERROT


Um pé muito pequeno...


ARLEQUIM


Uns olhos muito grandes!
Uma mulher igual à que encontrei na vida?


PIERROT, ofendido:


Enganas-te, Arlequim, nem mesmo parecida!
Era tal a expressão do seu olhar profundo, 
que não pode existir outro igual neste mundo!
Felinamente ardia a íris verdoenga e dúbia,
como o sinistro olhar de uma pantera núbia.


Esses olhos fatais lembravam traiçoeiras
feras, armando ardis nos fojos das olheiras!
Tão vivos que, Arlequim, desvairado, os supus
duas bocas de treva e erguer brados de luz!
Tripudiavam o bem e o mal nos seus refolhos.


ARLECRIM, cismando:


Essas coisas também ardiam nos seus olhos...


PIERROT


Tive medo, Arlequim! Vendo-os, num paroxismo
eu tinha a sensação de estar sobre um abismo.
Não sei porque o olhar dessa estranha criatura 
era cheio de horror...e cheio de doçura!
Eu desejava arder nessas chamas inquietas...
ARLEQUIM


Tendo o fim dos Pierrots?


PIERROT


Tendo o fim dos Poetas!
Aconcheguei-me dela, a alma vibrante louca, o coração batendo...


ARLEQUIM


E beijaste-lhe a boca.


PIERROT, cismarento:


Não...Para que beijar? Para que ver, tristonho, no tédio do meu lábio o vácuo do meu sonho... Beijo dado, Arlequim, tem amargos ressábios...
Sempre o beijo melhor é o que fica nos lábios,
esse beijo que morre assim como um gemido,
sem ter a sensação brutal de ser colhido...


ARLEQUIM


E que disse a mulher?


PIERROT


Suspirou de desejo...


ARLEQUIM , mordaz:


Preferia, bem vês, que lhe desses um beijo!


PIERROT


Não. Ela olhou-me. Olhei... E vi que, comovida, sentiu que , nesse olhar, eu punha a minha vida...


Um silêncio cheio de angústias vagas.
Sob o luar claro as almas brancas dos
Lírios evocam fantasmas de emoções
mortas. Os espectros das memórias
parecem recolher, como numa urna invi-
sível, a saudade romântica de Pierrot...




ARLEQUIM, tristonho:
Essa história, Pierrot, é um pouco merencória...


PIERROT


A história desse olhar é toda a minha história.


ARLEQUIM
E não a viste mais?


PIERROT


Nem sei mesmo se existe...


ARLEQUIM, contendo o riso:


É de fazer chorar! Tudo isso é muito triste!


Tomando-o pelo braço, confidencialmente:


Entretanto, ouve aqui, à guisa de consolo:
diante dessa mulher...foste um Pierrot bem tolo!
Aprende, sonhador! Quando surgir o ensejo,
entre um beijo e um olhar, prefere sempre um beijo!


PIERROT, desconsolado:


Lamentas-me Arlequim?
ARLEQUIM


Tu não compreendeste: choro não ter colhido o beijo que perdeste.


O AMOR DE COLOMBINA II


Uma voz que canta se aproxima.


A VOZ


Esse olhar deu-me o desejo
daquele beijo encontrar,
mas nunca , reunidas, vejo
a volúpia desse beijo
e a tristeza desse olhar!


PIERROT , extasiado:


Escutaste, Arlequim, que cantiga tão bela?


ARLEQUIM


Era dela esta voz?


PIERROT


Esta voz era dela...


Arlequim está imerso na sombra e um raio de luar ilumina
Pierrot. Entra Colombina trazendo uma braçada de flores.




COLOMBINA, vendo Pierrot:


Tu? Que fazes aqui?


PIERROT
Espero-te, divina...A sorte de um Pierrot é esperar Colombina!


COLOMBINA


Pela terra florida, olhos cheios de pranto, eu procurei-te muito...


PIERROT


E eu esperei-te tanto!


COLOMBINA


Onde estavas, Pierrot? Entre as balsas amigas, tendo no peito um sonho e no lábio cantigas, dizia a cada flor: “Mimosa flor, não viste um Pierrot muito branco...”


PIERROT


Um Pierrot muito triste...


COLOMBINA


E respondia a flor: “Sei lá... Nestas campinas passam tantos Pierrots atrás de Colombinas...” E eu seguia e indagava: “Ó regato risonho: não viste, por acaso, o Pierrot do meu sonho? “ E o regato correndo e cantando, dizia: “Coro e canto e não vejo” - e cantava e corria... Nos céus, ergendo o olhar, eu via, esguio e doente, o pálido Pierrot recurvo do crescente...
Assim te procurei, entre as balsas amigas, tendo no peito um sonho e no lábio cantigas, só porque, meu amor, uma noite, num banco, eu encontrara olhar de um triste Pierrot branco.


PIERROT


Não! Não era um olhar! Ardia nessa chama
toda a angústia interior do meu peito que te ama
Nosso corpo é tal qual uma torre fechada
onde sonha , em seu bojo, uma alma encarcerada.
Mas se o corpo é essa torre em carne e sangue erguida,
O olhar é uma janela aberta para a vida,
e, na noite de cisma, enevoada e calma,
na janela do olhar se debruça nossa alma
COLOMBINA, languidamente abraçada a Pierrot:


Olha-me assim, Pierrot... Nada mais belo existe
que um Pierrot muito branco e um olhar muito triste...
Os teus olhos, Pierrot, são lindos como um verso.
Minh’alma é uma criança, e teus olhos um berço
com cadências de vaga e, à luz do teu olhar,
tenho ânsias de dormir, para poder sonhar!
Olha-me assim, Pierrot... Os teus olhos dardejam!
São dois lábios de luz que as pupilas me beijam...
São dois lagos azuis à luz clara do luar...
São dois raios de sol prestes a agonizar...
Olha-me assim Pierrot... Goza a felicidade
de poluir com esse olhar a minha mocidade
aberta para ti como uma grande flor,
meu amor...meu amor...meu amor...


PIERROT


Meu amor!


Colombina e Pierrot abraçam-se ternamente. Há, como
um cicio de beijos, entre os canteiros dos lírios. Arlequim,
vendo-os, sai da treva e, com voz firme, chama.


ARLEQUIM


Colombina!
COLOMBINA, voltando-se assustada:


Quem é?
ARLEQUIM


Sou alguém, cuja sina foi amar, com Pierrot, a mesma
Colombina. Alguém que, num jardim, teve o sublime ensejo de beijar-te e jamais se esquecer desse beijo!


COLOMBINA, desprendendo-se de Pierrot:


Tu, querido Arlequim!


ARLEQUIM, galanteador:


Arlequim que te adora...Que te buscava há tanto e que te encontra agora.


COLOMBINA


E procurei-te em vão, mas te esperava ainda.


ARLEQUIM a Pierrot:


Ela está mais mulher...


PIERROT num êxtase:


Ai! Ela está mais linda!


ARLEQUIM, enfatuado, a Colombina:


És linda, meu amor! Nessa formas perpassa
na cadência do Ritmo, a leveza da Graça.
Teus braços musicais, curvos como perfídia,
têm a graça sensual de uma estátua de Fídias.
Não sendo inda mulher, nem sendo mais criança,
encarnas, grande viva, a Flor de Liz de França...
Sobe da anca uma curva ondulante que chega 
a teu corpo plasmar como uma ânfora grega
e é teu vulto triunfal, longo, heráldico, esgalgo,
coleante como um cisne e esbelto como um galgo!


COLOMBINA, fascinada:
Lindo!


ARLEQUIM


E não disse tudo... E não disse do riso
boêmio como ébrio e claro como um guizo.
E ainda não falei dessa voz de sereia
que, quando chora, canta, e quando ri, gorjeia...


Não falei desse olhar cheio de magnetismo,
que fulge como um astro e atrai como um abismo,
e do beijo, que como uma carícia louca...
inda canta em meu lábio e inda sinto na boca!


COLOMBINA com um voz sombria de volúpia:


Fala mais, Arlequim! Tua voz quente e langue 
tem lascivo sabor de pecado e de sangue.
O venenoso amor que tua boca expele,
põe-me gritos na carne e arrepios na pele!
Fala mais, Arlequim! Quando te escuto, sinto
O desejo explodir das potências do instinto,
O brado da volúpia insopitada, a fúria,
do prazer latejando em uivos de luxúria!
Fala mais, Arlequim! Diz o ardor que enlouquece
a amada que se toca e aos poucos desfalece,
e que, cega de amor, lábio exangue, olhar pasmo,
agoniza num beijo e morre num espasmo.
Fala mais, Arlequim! Do monstruoso transporte 
que, resumindo a vida, anseia pela morte,
dessa angústia fatal, que é o supremo prazer
da glória de se amar, para depois morrer!


PIERROT, num soluço:


Ai de mim!...


COLOMBINA, como desperta:


Tu Pierrot!


PIERROT, num fio de voz:


Ai de mim que, tristonho, trazia
à tua vida a oferta do meu sonho...Pouca coisa, porém... Uma alma ardente e inquieta arrastando na terra um coração de poeta.
Na velha Ásia, a Jesus, em Belém, um Rei Mago, não tendo outro partiu através de
Cartago, atravessando a Síria, o Mar Morto infinito, a ruiva e adusta Líbia, o mudo e fulvo Egito, as várzeas de Gisej, o Hebron fragoso e imenso, só para lhe ofertar uns grânulos de incenso... Também vim, sonhador, pela vida, tristonho, trazer-te o meu amor no incenso do meu sonho.


COLOMBINA com ternura:


Como te amo, Pierrot...




ARLEQUIM


E a mim, cujo desejo te abriu o coração com a chave do meu beijo? A tua alma era como a Bela Adormecida: o meu beijo a acordou para a glória da vida!


CALOMBINA fascinada:


Como te amo, Arlequim!...


PIERROT


desvairado pelo ciúme, apertando-lhe os pulsos,
numa voz estrangulada:


A incerteza que esvoaça desgraça muito mais do que a própria desgraça. Escolhe entre nós dois... Bendiremos os fados sabendo o que é feliz, entre dois desgraçados!


ARLEQUIM


Dize: Queres-me bem?


PIERROT:


Fala: gostas de mim?


COLOMBINA, hesitante:


A Pierrot:


Eu amo-te , Pierrot...


A Arlequim:


... Desejo-te, Arlequim...


ARLEQUIM, soturnamente:


A vida é singular! Bem ridícula, em suma... Uma só, ama dois... e dois amam só uma!..


COLOMBINA , sorrindo e tomando ambos pela mão:


Não! Não me compreendeis... Ouvi, atentos, pois meu amor se compõe do amor de todos dois... Hesitante, entre vós, o coração balanço:
A Arlequim:


O teu beijo é tão quente...


A Pierrot:


O teu sonho é tão manso...


Pudesse eu repartir-me e encontrar minha calma dando a Arlequim meu corpo e a Pierrot a minh’alma! Quando tenho Arlequim, quero Pierrot tristonho, pois um dá-me o prazer, o outro dá-me o sonho!
Nessa duplicidade o amor todo se encerra: um me fala do céu... outro fala da terra!
Eu amo, porque amar é variar, e em verdade toda a razão do amor está na variedade...
Penso que morreria o desejo da gente, se Arlequim e Pierrot fossem um ser somente,
porque a história do amor pode escrever-se assim:


PIERROT
Um sonho de Pierrot...


ARLEQUIM


E um beijo de Arlequim!



.


PERSONAGENS:
Arlequim : Um desejo
Pierrot : Um Sonho
Colombina: A Mulher

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Por que uma mulher não pode ser como um homem?

My Fair Lady, 1964, George Cukor (dir). Audrey Hepburn Rex Harrison

Segue abaixo o trecho em português:


- Pickering, por que uma mulher não pode ser como um homem?
- Como?
Sim, por que uma mulher não pode ser como um homem?


Homens são honestos, convencionais
Eternamente nobres, justos
Quem, quando ganha, vai sempre 
lhe dar um tapinha nas costas?


Por que uma mulher não pode ser assim?


Por que uma, faz aquilo que as outras fazem?
Uma mulher não pode se guiar pela própria cabeça?
Por que fazem tudo que suas mães fazem?
Por que não crescem como seus pais, por exemplo?


Por que não podem ser assim?


Homens são tão agradáveis, fáceis
Toda vez que se está com eles
Se está sempre à vontade
Você ficaria aborrecido se eu não falasse por horas?
- É claro que não!
- Ficaria lívido se eu tomasse um drinque ou dois?
- Ridículo!
- Ficaria magoado se eu nunca enviasse flores?
- Nunca!


Por que uma mulher não pode ser assim?


Um homem em muitos, pode gritar
De vez em quando há um ou outro com alguns defeitos
Um, talvez, que a honestidade possa ser questionada
Mas, de longe somos um sexo maravilhoso


Por que uma mulher não pode ser assim?


Os homens são amigáveis
Boa-praças e gentis
Companhia melhor
Você nunca vai encontrar
Se eu atrasasse para o jantar você iria gritar?
- É claro que não!
Se eu esquecesse seu tolo aniversário, você ia se chatear?
- Ridículo!
Iria reclamar Se eu saísse com outro sujeito?
- Nunca!


Por que as mulheres não podem ser assim?


Sra. Pearce, você é uma mulher.
Por que uma mulher não pode ser mais como o homem?
Homens são tão decentes
Camaradas tão normais
Prontos para ajudar
Em qualquer caso
Prontos para animar
Sempre que você estiver mal


Por que a mulher não pode ser amiga?


Por que pensar é algo que nunca fazem?
E por que nunca tentam a lógica?
Arrumar o cabelo
É tudo o que sempre fazem
Por que não arrumam
A bagunça que têm lá dentro?
Por que não podem
se comportar como nós?
Se eu fosse uma mulher
Que foi levada a um baile
Tratada como uma princesa
Por um, por todos
Começaria a chorar
Como uma banheira transbordando?
Ou me comportando como se minha
Casa fosse em uma árvore?
Eu iria fugir
E não dizer para onde vou?
Por que ela não pode ser como eu?

domingo, 12 de fevereiro de 2012

NO LIMIAR COM CORVOS

Campo de Trigo com Corvos, c.1890
Vincent van Gogh



Absinto
sinto
abstenho
tenho
em mim
dentro
sinto
calo
consinto
reparo
comparo
paro

me abstenho do ter
me abstenho do sentir
me abstenho...

sinto que calo
sinto que consinto
reparo, comparo, paro

corroido pela dor e pelo vício
abstenho-me da vida num suplício
dou a ela o fim que me cabe
nos campos de trigo em que sorvi
um último vislumbre de beleza
em meu próprio peito com destreza
abrevio essa solitária existência
na tristeza que se eterniza
num último suspiro 

Grupo: Grito Criativo

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Feliz em Ser Ela Mesma



... Ela Simplesmente Cansou
dos Venenos
e dos Silêncios de Sua Vida,
Ousou
Se Vestiu de Borboleta,
Pegou Ventos Livres
e Vôou Por Aí...
Feliz em Ser Ela Mesma
a Própria.

 Maxuel Scorpiano

domingo, 5 de fevereiro de 2012




Um, dois e… quando me dou conta, já fui, me joguei antes de contar até três, disse o que não era para ser dito fiz coisas que não era para ter feito, me arrebento rápido, nem dói de tão ligeiro. MENTIRA, dói de qualquer jeito.


Martha Medeiros

A marca



"Nós deixamos uma marca, uma trilha, um vestígio. Impureza, crueldade, maus-tratos, erros, excrementos, esperma - não tem jeito de não deixar. Não é uma questão de desobediência. Não tem nada a ver com graça nem salvação nem redenção. Está em todo mundo. Por dentro. Inerente. Definidora. A marca que está lá antes do seu sinal. Mesmo sem nenhum sinal ela está lá. A marca é tão intrínseca que não precisa de sinal.
A marca que precede a desobediência, que abrange a desobediência e confunde qualquer explicação e qualquer entendimento.
Por isso toda essa purificação é uma piada.
E uma piada grotesca ainda por cima.
A fantasia da pureza é um horror.
É uma loucura. Porque essa busca da purificação não passa de mais impureza."

Philip Roth, A marca humana, Companhia das Letras, 2002, pág. 308

Siga seu coração...


Com o coração se pede.
Com o coração se procura.
Com o coração se bate e é com o coração que a porta se abre.

Santo Agostinho

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Depois do Bom Dia Brasil....



Às vezes sinto que devia usar este espaço para assuntos que insistem em pulular no espaço quente e úmido do meu cérebro. Meus pensamentos diários sobre essa vida dariam boas crônicas.

Não são poucas as vezes que me vem uma vontade louca de escrever, botar a boca no mundo, mas a preguiça apodera-se de mim e pronto. Nada. Também pesa o fato de pensar sobre a irrelevância dos temas, são fatos muito batidos que cada um tem sua opinião, serei apenas mais uma, com pouco a oferecer por aqui bradando suas dores e sua forma amarga de ver o mundo como ele é.

Já o fato de pouco ou nada importar aos outros aquilo que penso isso pra mim também não importa, pois a mim importa pouco a maneira cor de rosa que eles vêm. Pouco ou nada me interessa o que os outros pensam sobre o que quer que seja.

Sim às vezes sou arrogante e birrenta, mas esta coisa a que chamamos vida me ensinou assim.

Sou assim, gosto assim e é assim que me entrego às pessoas, mas dificilmente me entrego, ou me entrego sempre por qualquer cafuné na cabeça. Mas isso é um outro assunto também meio batido, pois já falei muito de meus sentimentos aqui, as vísceras já foram expostas em praça pública por diversas vezes. Não sou nem menos nem mais por isso. E lá vou eu enredando-me por outros campos, mas hoje não quero falar disso.
Lembra de Gabriela? Pois e por aí.

Mas que eu deveria escrever mais, ah isso sim eu deveria.

Parar de usar as palavras do Caio, da Clarice, de Florbela, de Brecht e usar a minha voz. Meus pensamentos, minhas idéias. Mas o fato é que tudo já foi pensado ou dito. Hoje é uma reciclagem geral. O mundo é cíclico. Os pensamentos também.  Sempre escolhemos uma corrente e seguimos por ela. Não tem jeito sempre quando escrevo algo, tem a influência de alguém. Nessas horas sou altamente influenciável.
Pois é, mas só queria mesmo é dizer que: não agüento mais ouvir os telejornais, não agüento mais ouvir as verdades, não agüento mais a realidade.

Uma dose de poesia, por favor.
Um pouco do lúdico.
Devolvam-me o véu de Maya
Um pouco de fantasia.
Poxa gente, mentiras sinceras me interessam.
Enfim: Guardas, guardas, prendam a verdade e tirem essa realidade da minha frente.

Espero ser fraca muitas vezes nessa vida, diante das tentações que ela me oferecer.


Hoje consigo aceitar que se não me faz bem, não é pra ser. Estou certa de que Deus fecha uma porta e abre duas janelas. Que é só me virar pro sol que não consigo ver a sombra. Que algumas pessoas são sim substituíveis. Que paixões vão e vem e que amor de verdade não termina! Hoje só minha consciência pode me condenar, e sem falsa modéstia, raramente isso acontece! Valorizo cada erro que cometi, pois embora pareça clichê, eles me fizeram crescer, ser quem sou, e valorizar ainda mais meus acertos. Não esqueço o passado, mas poucas coisas que passei eu gostaria de reviver. Tenho a sorte de poder dizer que hoje é melhor que ontem, e as pessoas que me cercam hoje são tão preciosas quanto muitas que ficaram pra trás por falta de opção, e mais do que todas que escolhi deixar pra trás! Quem não me merece não vai me ter por perto, e me sinto digna de ter por perto quem eu desejar ter. Minhas atitudes independem da atitude de outra pessoa, e nem sempre eu digo o que condiz. Espero ser fraca muitas vezes nessa vida, diante das tentações que ela me oferecer. Voltei a ser o que era há alguns anos, tive um reencontro comigo, com a diferença de que dessa vez não é qualquer pessoa que vai me desviar do que eu realmente quero. Não me anulo por mais ninguém, e hoje em dia, ninguém me inspira mais do que eu mesma!
Karla Tabalipa.
Tuas idéias passageiras
e a leveza das tuas palavras me fazem tão bem...
Mania de chegar e fazer festa nos meus lábios!
Sorte a nossa de nos encontrar,
sorte a minha ver você acontecer.
Camila Heloise.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Você também já deu sua espiadinha.



Estranha, deveras perigosa essa curiosidade que as “rivais” despertam umas nas outras, pois assim nos vemos quando cruzamos o caminho uma da outra por intermédio deles.
Seja realmente uma amante, uma ex, uma amiga ou qualquer que se aproxime dele (que consideramos nossa propriedade) que não seja sua mãe, sua irmã nossa mãe e nossa irmã.
Queremos saber como se veste, o que faz, o que pensa, qual o grau de intelecto e principalmente os atributos físicos da outra. 
O famoso reconhecimento de área.
Depois de conhecer o “inimigo” inicia-se a guerra das vaidades, que se, uma das partes não for mais tranquila, acaba sempre em baixaria das feias.
Mas homens, não se enganem, vocês apenas nos apresentam, depois passam a ser meros coadjuvantes nessa disputa.
Não brigamos por vocês, não lutamos por vocês.
Lutamos por nos, por nossa vaidade, nosso orgulho ferido.
Antes ficávamos feito loucas nessa tarefa infame de usurpar do homem o currículo completo da dita cuja. Mas nunca estávamos satisfeitas com as informações coletadas.
 Agora a Internet, nos “facilitou” a vida, as redes sociais são um prato cheio para essa bisbilhotagem doentia.
No Orkut era mais complicado, não podíamos ficar invadindo o perfil da outra sem nos queimar, pois éramos denunciadas pelo incomodo aplicativo chamado visitantes de perfil.
Agora no Facebook estamos no paraíso, o Livro de Caras chegou como uma grande arma de espionagem, que na maioria das vezes usamos contra nós mesmas atirando nos próprios pés.
E como vasculhamos a vida da fulana (geralmente esse é o tom menos pejorativo usado), às vezes nos sentimos bem, às vezes saímos arrasadas.
Mas a espiadela diária é sagrada. Vira uma espécie de paixão. Felizmente como toda paixão tem um fim, e um belo dia nosso interesse por ela desaparece...
E que atire a primeira pedra quem nunca teve essa curiosidade.
Ai!
Ei meninas era só uma pedrinha
Sei que essas verdades femininas não se conta, mas não resisti...