segunda-feira, 26 de março de 2012

Dialética da ausência


A palavra saudade treme de frio,
quando a escrevo.

Quando chegaste, São Pedro suspeitou:
já conheço esta luz!

Aqui eras homem e terra.
Agora és estrela e longe.

Atravessaste o mistério.
E, por amor, te desvendo nele.

Com mãos de brisa arredaste nuvens que
protegiam o desconhecido.

De tuas mãos, quando desceste, exalava chuva de luz.
Só estrelas alumiavam a hora sombria.

Não esperaste pelo nascer das rosas, tão adivinhadas.
Vou te levar o perfume delas.

Teus pés ficaram surpresos ao caminhares
sobre tantas estrelas?

Invejando o vôo da andorinha, em tua viagem,
venceste tempo e dor.

No silêncio manso deste poente, de minhas mãos
faço berço para ninar a tristeza.

Meus olhos te perderam.
E como te vejo!

Quando varrerem estrelas, pede para jogá-las
sobre nosso telhado.

Abre a janela desse palácio azul.
Procuro ver teu rosto sorrindo.

Só depois que foste, componho meu tempo
em pauta de violoncelo e réquiem.

Teus óculos, sobre a mesa de trabalho, me espiam.
Vêem também o meu vazio?

Teus sapatos conheceram Tóquio, Istambul, Buenos Aires.
Repousam agora num canto do armário:
pesariam demais para tua última viagem.

Ofereci tua camisa do América a um torcedor fanático.
Ela vai acrescentar, em seu peito,
a tua paixão ingênua pelo clube.

O canarinho deixou de cantar: morreu em tuas mãos.
Sofreste longamente.
Escutarás seu canto
na gaiola sem portas do para sempre.

Descobri tua foto dando o chute inicial em jogo de futebol.
Agora, marcaste o maior gol
entre as traves estreitas do céu.

Digoxina, Slow K, Captopril e Marcoumar restam na gaveta.
Por teu amor à pobreza,
hão de melhorar corações indigentes.

Com Churchill conversas sobre tua admiração por ele.
Com Milton Campos, falas de justiça.
Com Chico Xavier, indagas da espiritualidade.
A propósito: já terás dado um abraço em Jesus?

Levaste contigo bagagens e mais bagagens de generosidade.
Tantas, que muitas rolavam por onde passaste.

Guerra, luto, violência, corrupção, injustiça:
estás a salvo da tragédia humana.

Um tsunami passou
e meus olhos estão rochas de cristais.

Apreciavas tanto o queijo mineiro, que deves ter cortado
uma fatia da Lua, no caminho.

O céu será como abacate, limão e açúcar,
de que tanto gostavas?

Nos pomares do céu, serão as laranjas
mais doces?

Bacalhoada, moqueca de peixe, massas italianas
- tantos pratos - e a mesa vazia!

Colei um trevo de quatro folhas em tua carteira
de identidade.
Permanecerás com teu passaporte válido para a felicidade.

A ausência de tua voz é mensagem que recebo
de momentos indizíveis.

Levaste para o território da luz
minhas todas auroras.

Teu coração continua batento forte: no porta-retrato.

Teu silêncio acorda em mim palavras antigas.

Pendurei teu sorriso em minha memória
como estandarte.

Do embornal do cotidiano retiro, a todo instante,
lascas de saudade de ti.

O rumor de teus passos pisa meu coração.

Tua caneta, ainda morna de tuas mãos,
aguarda tua assinatura.
Em vão.

Teu perfume no travesseiro beija meu rosto molhado.

Conquistaste tantas e muitas pontes.
A última, as cores do arco-íris.

Com as cartas do baralho, sobre a trama dos dias,
venceste com Às de Ouro.

Tanto o vazio preenche a vida que, sem ti, só ausência
transborda em mim. 


Yeda Prates Bernis in:Viandante
 Um livro de mensagens poéticas que Yeda escreveu em homenagem póstuma ao seu marido.

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