domingo, 29 de abril de 2012

Que estava eu ali a fazer?




Que estava eu ali a fazer? Porque estava a falar com aquelas pessoas? [...] Tinha morrido a paixão que me submergia e arrastara durante anos; naquela altura sentia-me vazio. Mas não era isso o pior...

Jean-Paul Sartre in: A Náusea

Mas tenho medo do que vai nascer, apoderarse de mim - e arrastar-me...



Se não me engano, se todos os sinais que se vão acumulando são precursores duma
nova transformação brutal da minha vida, então tenho medo. Não que a minha vida
seja rica, importante, nem preciosa. Mas tenho medo do que vai nascer, apoderarse
de mim - e arrastar-me... arrastar-me para onde? Vou ter outra vez de partir,
deixar tudo em meio[...]
Voltarei a acordar daqui 
a alguns meses, daqui a alguns anos, derreado, desiludido, no meio de novas 

ruínas? Queria ver claramente o que se passa em mim, antes que seja tarde demais.

Jean-Paul Sartre in: A Nausea

sábado, 28 de abril de 2012

Sobre o Tempo

E não se iludam filhos de Cronos




Cronos, um pai cruel, devora seus filhos com uma voracidade  impiedosa. Infinito soberano, mas tão mesquinho com os seus.Vê seus filhos se degradarem tão rapidamente.
Com o tempo tudo que é bonito se desfaz.
O calor da paixão esfria.
Máscaras caem, verdades aparecem nem tão bonitas.
A beleza acaba flores morrem.
E o sábio pai continua. Renova-se e é infinito.
Mas nós, poeira cósmica, denominados filhos de deuses. Sumimos num ínfimo espaço de tempo. 
E não se muda uma vírgula de lugar por nossa ausência...

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Não, não e não.


[...]expectativas borram maquiagens e comprimem estômagos. 
Não, não e não. Eu não quero dor. 
Eu não quero olhar no espelho e ver você escorrer, manchando minha cara bonita.”
Fernanda Mello

Sejam bem vindos!


“Este ser humano é uma casa de hóspedes.
Todas as manhãs, uma nova chegada.
A alegria, a depressão, a ausência de sentido,
alguma consciência momentânea, chega
como visitante inesperado.
Dê-lhes as boas vindas e entretenha-os a todos!
Mesmo que sejam uma multidão de dores
que violentamente arrasam a sua casa,
despejam a sua mobília,
ainda assim, trate cada hóspede honradamente.
Ele poderá estar a prepará-lo
para um novo prazer.
Os pensamentos escuros, a vergonha, a malícia,
encontre-se com eles à porta, rindo,
e convide-os a entrar.
Esteja grato a quem quer que venha,
porque cada um, foi enviado
como um guia do além.”
Poema de Rumi


terça-feira, 10 de abril de 2012

...a grande liberação...


Para essa espécie de servos a grande liberação chega de repente, como um terremoto: a jovem alma é de um só golpe sacudida, derrubada, arrancada – ela própria não entende o que se passa. Um ímpeto e um fervor imperam e se apoderam dela como uma ordem; uma vontade, um desejo desperta para seguir em frente, para onde quer que seja, a qualquer preço; uma violenta e perigosa curiosidade por um mundo desconhecido arde e flameja em todos os seus sentidos. “Antes morrer que viver aqui” – assim fala a imperiosa voz da sedução: e este “aqui”, este “em casa” é tudo quanto ela amou até então! Um repentino medo, uma desconfiança em relação a tudo o que ela amava, um lampejo de desprezo por aquilo que para ela significava “dever”, um desejo sedicioso, voluntário, impetuoso como um vulcão, de expatriação de afastamento, de resfriamento, de desengano, de gelificação, um ódio ao amor, talvez um gesto e um olhar sacrílego para trás, para onde ela até então havia orado e amado, talvez um rubor de vergonha pelo que acaba de fazer e ao mesmo tempo um grito de alegria por tê-lo feito, um arrepio de embriaguez e de prazer interior, em que se revela uma vitória – uma vitória? Sobre quê? Sobre quem? Vitória enigmática, problemática, contestável, mas ainda assim uma primeira vitória: - aí estão os males e as dores que compõem a história da grande liberação.

Friedrich Nietzsche in: Humano Demasiado Humano (Prefácio)

...seu divórcio da humanidade. Humanidade?


"Nietzsche está saindo de um hotel em Turim. Vê diante de si um cavalo, e um cocheiro espancando-o com um chicote. Nietzsche se aproxima do cavalo, abraça-lhe o pescoço, e sob o olhar do cocheiro, explode em soluços. Isso aconteceu em 1889, e Nietzsche já estava também distanciado dos homens. Em outras palavras: foi precisamente nesse momento que se declarou sua doença mental. Mas, para mim, é justamente isso que confere ao gesto seu sentido profundo. Nietzsche veio pedir ao cavalo perdão, por Descartes. Sua loucura (portanto seu divórcio da humanidade) começa no instante em que chora sobre o cavalo"
Milan Kundera in: A insustentável leveza do ser

POR UM LINDÉSIMO DE SEGUNDO


[...]Transar bem todas as ondas 
a Papai do Céu pertence,
fazer as luas redondas
ou me nascer paranaense.
A nós, gente, só foi dada
essa maldita capacidade,
transformar amor em nada.

PAULO LEMINSKI
DISTRAÍDOS VENCEREMOS

sexta-feira, 6 de abril de 2012

"Que me pesa que ninguém leia o que escrevo?

Escrevo-o para me distrair de viver, e publico-o porque o jogo tem essa regra."
Fernando Pessoa

Compartilhei da Casa da Luísa, um espaço que vale a pena conhecer visitar e dar a mão.

O que de mais honesto avisto é a falsidade de tantos, e o que mais aprecio é a depreciação de todos; todos somos igualmente descartáveis!

Outro Alguém Sem Sobrenome




Gostou dessa? Aqui tem mais, muito mais: 

'ama-me, é tempo ainda'


Hilda Hilst


Ai daqueles
que se amaram sem nenhuma briga
aqueles que deixaram
que a magoa nova
virasse a chaga antiga

ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é pão feito em casa
e que a pedra não voa
porque não quer
não porque não tem asa


Paulo Leminski in: Distraídos venceremos

Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.
E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
E não entraves seu uso
aos que têm sede.

Cora Coralina

O anjo e a fera


Dentro do homem
mora um anjo
e uma fera

O anjo guarda a fera
tão bem escondida
como a fera guarda
o anjo.

Quando o anjo se ilude,
quem ama é a fera.
Quando a fera se fere
quem se machuca é o anjo.

Na constância do verbo
quem padece é o homem
por causa do anjo,
por causa da fera

(Chico Poeta)

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Viver se iludindo é a mesma coisa que tentar dormir o dia inteiro. Não adianta, uma hora você acorda.

  Isabela Freitas

Pra que merda vou viver? Se não for porque acredito em algo melhor que isso que é o que me espera.

Por Eduardo Galeano

[...]Esse entusiamo é uma vitamina E. "E" de Entusiasmo. Que vem de uma palavra grega que significa "ter os deuses dentro". E toda vez que vejo que os deuses estão dentro de uma pessoa, ou de muitas, ou de coisas! Da natureza, montanha, rios... Enfim, aí eu digo: Isso é o que falta para me convencer de que viver vale a pena. Então, estou muito contente de estar aqui, como estive antes na Praça do Sol, porque é a prova de que viver vale a pena. E que viver está muito, muito mais além das mesquinharias da realidade política onde se ganha ou se perde... E da realidade individual também! Onde só se pode "ganhar ou perder" na vida! E isso importa pouco. Em relação com esse outro mundo que te aguarda. Esse outro mundo possível. Que está na barriga deste! Vivemos num mundo infame, eu diria! Não incentiva muito... Um mundo mal nascido... Mas existe outro mundo na barriga deste. Esperando... Que é um mundo diferente. Diferente e de parto complicado. Não é fácil o nascimento. Mas com certeza pulsa dentro do mundo em que estamos. Um mundo que "pode ser" pulsando no mundo que "é". Que eu reconheço nessas manifestações espontâneas na Praça Catalunya, ou na Sol em Madri. São as que pude acompanhar. Sei que existem muitas outras, que são a prova disso. E alguns me perguntam: O que vai acontecer? E depois?! Que vai ser? E eu respondo o que vem da minha experiência e digo: Bom... nada! Não sei o que vai acontecer! E não me importa o que "vai" acontecer! Me importa o que "está" acontecendo. Me importa o tempo que "é". E o que "é" é o tempo que se anuncia sobre outro tempo possível que "acontecerá". Mas o que acontecerá no fim, não sei! É como se me perguntassem toda vez que me apaixono, quando vivo uma experiência de amor de verdade. Quando sinto que vivo e não me importo se morrerei nesse momento mágico, quando acontece. Pois então... O amor é assim! "É infinito enquanto dura!" É importante que seja infinito enquanto dura. Não temos que planejar tudo como se estivéssemos fazendo o balanço do banco! Assim: "Dívida, balanço, saldo! Estatísticas, probabilidades" Vamos consultar as meninas Super Poderosas, ou isso que chamam "Standard & Poor's". É um nome muito eloquente, que significa: "média ou pobreza". Vejamos o que dizem a "Média ou Pobreza", o que nos espera? Que merda me importa o que nos espera?! Esses tecnocratas de quinta categoria, que são uns ignorantes! Que não sabem porra nenhuma e que ganham uns salários altíssimos! E em cada crise que eles desatam acabam aumentando suas fortunas! Porque são recompensados por essas façanhas que consiste em arruinar o Mundo. Esse é o mundo ao contrário: Que recompensa a seus arruinadores ao invés de os castigar! Não tem nenhum preso entre os banqueiros que promoveram, provocaram essa crise no planeta inteiro. Nenhum preso! E por outro lado, há milhares de presos por terem consumido maconha, ou terem roubado uma galinha! Milhares de presos! É o mundo ao contrário! Um mundo de merda! Mas não é o único mundo possível. E cada vez que eu me junto a essas concentrações lindíssimas com os jovens, penso: Há um outro mundo que nos espera: esse "outro mundo". Esse mundo de merda está grávido de outro. E são os jovens que nos levam para frente. Esses jovens excluídos pelas seleções regidas pelos interesses dos partidos políticos. E os jovens já não votam! Eu agora venho da América do Sul. Os jovens chilenos não votaram no Chile. 2 milhões de jovens chilenos não votaram! Não votaram porque não acreditam na democracia que oferecem a eles. E agora quantos jovens não votaram na Espanha? Nem sei! Nem foram contados! Mas dentro dos 10 milhões de espanhóis que não votaram, deve haver muitos jovens que não votaram! E não votaram porque não acreditam nessa democracia que oferecem! E não achem que não acreditam "Na Democracia"; não! Mas "Nessa Democracia" manipulada, nesse nome sequestrado, pelos banqueiros, pelos políticos mentirosos, pelos "artistas de circo" que oferecem um pirueta diferente a cada dia. Havia um velho político no Uruguai, morreu há muito tempo - que não era revolucionário nem nada, um político do sistema. Mas era um homem que conhecia a vida melhor que os outros. E quando lhe ofereciam um candidato a deputado na lista do Partido Nacional - Se chamava Herrera. Falava "axim", fanhoso e tal. - E diziam: "que você acha se indicarmos pra senador o fulanito?" E ele: "Não, não, não! Esse é um redondo" Redondo! Ele chamava de "redondo" aos que ficavam redondos de tanto girar. E era verdade! E na realidade política atual há uma imensa quantidade de redondos que ficam redondos de tanto darem voltas. E os jovens têm culpa de não acreditarem nos redondos?! Ou são os redondos que tem culpa de que os jovens não acreditem neles? E por isso eu gosto de estar aqui conversando. É disso que eu gosto: jogar conversa fora. Se você tivesse pedido para oferecer minha versão do destino da humanidade teria dito: não! Eu gosto de jogar conversa fora, conversar como os meus iguais. Porque são iguais a mim. Porque somos todos iguais na luta por uma vida diferente. E tomara que isso siga vivo, porque senão... Pra que merda vou viver? Se não for porque acredito em algo melhor que isso que é o que me espera. [...]

Transcrição de parte do depoimento de Eduardo Galeano na Praça da Catalunya, 24/04/2011.
Entrevista na integra vídeo abaixo: